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Jingles chicletes cumprem sua função

A cada dois anos eles invadem o seu dia a dia e grudam na sua mente, fazendo com que você lembre de cada palavra, não importa se está no trabalho, no banho ou prestes a dormir.  E quanto mais pessoas se lembram deles, melhor: sinal de que alcançaram o objetivo. Mais que uma repetição de versos e números, os jingles eleitorais são marcas registradas das campanhas e importantes ferramentas utilizadas pelos candidatos na busca pelo voto. Podem, inclusive, ser fatores determinantes na hora de um eleitor fazer sua escolha nas urnas.

Os jingles podem até parecer insignificantes, mas não se engane: eles fazem parte do processo eleitoral brasileiro há 87 anos. Conforme lembra o publicitário Carlos Manhanelli, autor do livro Jingles eleitorais e marketing político – uma dupla do barulho, o primeiro político a fazer uso foi Julio Prestes, em 1929. Intitulado Comendo bola, o jingle é bem diferente do que se conhece hoje: os primeiros versos trazem um apelo extremamente religioso ao afirmar que “Jesus já designou que seu Julinho é quem vem”. Adversário político de Prestes, Getulio Vargas lançou seu jingle em seguida, sob o tíltulo de Seu Getulio. Apesar de ter ganhado as eleições, Prestes jamais assumiu o posto devido à Revolução de 1930.

Manhanelli explica que, antes de tudo, o jingle é uma peça publicitária. “Ele pode ser usado no carro de som, em comícios, como ‘BG’ (som de fundo) nas campanhas do rádio e TV.” E os políticos brasileiros não são os únicos a fazerem uso da ferramenta: países africanos como Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe também usam. O mesmo vale para países europeus, latino-americanos, além dos Estados Unidos.

Maestro e professor de jingles da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Kléber Mazziero diz que, apesar de ser difícil mensurar a importância dos jingles nas campanhas, ele é um elemento fundamental. “O voto do eleitor tem componentes racionais e emocionais. Dentro do segundo campo, a música do candidato é um dos fatores (que pode influenciar o voto). Uma porcentagem muito grande de eleitores vai às urnas sem candidato pré-definido para votar e, com a memória sonora, é possível que esse voto venha a se definir”, explica.

É preciso entender, ainda, que os jingles foram se modificando ao longo do tempo. Antes, a diversificação de ritmos não era tão grande e as marchinhas eram um dos mais utilizados. Hoje, há uma proliferação grande de outros estilos musicais nas campanhas. Doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Luiz Cláudio Lourenço analisou os jingles eleitorais utilizados na campanha presidencial de 2006. Os resultados, publicados em um artigo, apontam que o gênero preponderante foi o chamado “pop gospel”, que tem um forte caráter emocional em sua melodia.

As diferenças entre os jingles eleitorais de antigamente e os atuais estão diretamente ligadas ao contexto da Música Popular Brasileira (MPB), segundo Kléber Mazziero. Dos anos 1950 até a década de 1970, as peças de campanha passaram por sua “época de ouro”. “A partir dos anos 1980, a MPB é menos reconhecida como uma música rica. E o jingle é menos rico, mais óbvio”, diz, citando que, até o ano 2000, não havia registros de paródias. “A ideia é ser chiclete. O jingle eleitoral precisa sobreviver durante toda uma eleição, que dura pouco tempo. Os que grudam no ouvido são os que fazem sucesso”, diz Mazziero. Se você não suporta acordar ou dormir pensando neles, é bom se acostumar: “Enquanto ele for útil, vai ser utilizado”, prevê Carlos Manhanelli.


Fonte: Diário de Pernambuco

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