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Jornalistas vítimas de assédios de juízes e promotores do Paraná recebem prêmio

Um grupo de jornalistas que sofreu assédio por revelar salários de juízes e promotores recebe, a partir das 12h, em Brasília, o Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa 2016. É a primeira vez que a Associação Nacional de Jornais distingue profissionais que enfrentaram pressão e a força corporativa de setores do Poder Judiciário e do Ministério Público.

O prêmio é um reconhecimento da Associação Nacional de Jornais aos jornalistas Chico Marés, Euclides Lucas Garcia, Rogério Galindo, Evandro Balmant e Guilherme Storck e ao jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, por divulgarem, em fevereiro, reportagens sobre remunerações das categorias acima do teto.

A equipe sofreu 48 ações por danos morais. O caso constrangeu a opinião pública do Paraná e provocou repúdios de entidades nacionais da imprensa, como a ANJ, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert).

Esta é a segunda vez que a ANJ, entidade que representa 120 empresas, premia um jornal. Em 2011, o Clarín, de Buenos Aires, recebeu a distinção por sofrer represálias do governo de Cristina Kirchner.

Criado há oito anos, o prêmio já foi concedido a dois magistrados, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Brito, em 2008, que fez um relatório sobre a incompatibilidade da antiga Lei de Imprensa com a Constituição, e a atual presidente do STF, Cármen Lúcia, no ano passado, por votar contra a necessidade de autorização prévia para biografias.

Desta vez, a ANJ decidiu conceder o prêmio para questionar claramente o Judiciário. “O prêmio é para prestigiar, em primeiro lugar, o bom jornalismo. Depois, a questão que se colocou para a diretoria da ANJ é que os magistrados paranaenses não buscaram justiça, mas apenas constranger o livre exercício do jornalismo”, afirmou Ricardo Pedreira, presidente da entidade. 

“A ANJ já prestigiou o Judiciário, um dos Poderes da República, que tem nosso total respeito, e não questiona o direito, mesmo de juízes, de buscar seus direitos. Mas não é aceitável e cabível o uso da Justiça para impedir e restringir o direito do cidadão de ser bem informado.”

Numa primeira análise do caso, a ministra Rosa Weber, do STF, negou pedido para suspender a série de ações. Depois, ao avaliar recurso apresentado pela Gazeta do Povo, ela mudou de posição. No recurso, o jornal apresentou um áudio em que o juiz Walter Ligeiri Junior, de Paranaguá, afirmou que os jornalistas teriam que viajar muito para responder processos e 700 magistrados preparavam ações contra o jornal e seus profissionais. O presidente da ANJ disse esperar, agora, a derrubada das ações na discussão do mérito. A ANJ e a Abert também são partes do processo para suspender as ações coordenadas.

O diretor de Redação da Gazeta do Povo, Leonardo Mendes Júnior, observou que a cobertura de Judiciário, em qualquer lugar do País, é “delicada” pela “grandeza” e “complexidade” das questões da área, exigindo uma formação diferenciada dos jornalistas.

Ele ressaltou que a série de reportagens da equipe da Gazeta do Povo “jogou luzes” em informações de portais de transparência de órgãos oficiais. “Esse conjunto de reportagens acabou tocando em um ponto caro, que é a remuneração. Muita gente (no Judiciário) entendeu como um debate público necessário, mas alguns não entenderam assim e expuseram uma lógica corporativa”, disse. “De fevereiro para cá, a nossa cobertura segue normalmente. Voltamos ao debate sempre que achamos necessário. Não há constrangimento em discutir assuntos do Judiciário porque isso faz parte do nosso trabalho.”


Fonte: Diário de Pernambuco

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