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José Luiz Delgado: As gerações e seus dramas

Por José Luiz Delgado

Professor de direito da UFPE

Na, a tantos títulos, notável oração de posse da ministra Cármen Lúcia, gostei especialmente da referência que fez à pretensão de cada geração de ver os seus como os maiores problemas de todos os tempos: cada uma “tem a ilusão (e um pouco de soberba) de achar que o seu é o maior desafio, apenas porque é o seu”.

A verdade é que nenhum tempo é melhor nem pior do que os outros. Nenhum passado, melhor do que hoje. Cada qual terá sua angústia e suas encruzilhadas. Os dramas dos tempos anteriores somente parecem menores porque já foram resolvidos, já passaram, já a história os superou. As alternativas inquietantes que perturbavam nossos predecessores já foram dissolvidas, algumas delas havendo prevalecido e o mundo continuando num determinado sentido, que bem poderia ser diferente se a alternativa adotada tivesse sido outra… O que nos confunde é que as alternativas estão abertas diante de nós, e estamos na hora das hesitações sem saber qual definição preferir, por qual caminho optar.

Para onde iria o mundo no final da década de 30: para o regime dos totalitarismos, que pareciam eficientes, ou para as democracias, que pareciam vulneráveis? Como superar o regime militar brasileiro e restaurar o governo civil? Para onde marcharia a França naquelas grandes convulsões de revolução/império/monarquia? Ainda subsistiria a Igreja, tendo sido proclamado que, com a morte de Pio VI, não haveria mais papado, findara-se o último papa? Os exemplos se multiplicam ao infinito, e qualquer bom estudo da história mostrará exatamente as perplexidades, os dilemas diante dos quais a geração estudada se encontrava, sem saber que rumo tomar.

Os nossos, os da hora presente, podem ser problemas terríveis, que nos deixam perplexos, temerosos pelos abismos que poderemos estar a cavar. A tragédia, por exemplo, que é a representação política no Brasil, cada vez mais fundo o fosso que separa os eleitos, casta privilegiada, da massa dos eleitores, sempre à margem. O culto a contravalores, mais do que falsos valores: o desprezo pelos menores de todos, a apologia da destruição (dizem “desconstrução”…) da ordem natural das coisas, pregações de comportamentos contra a natureza e de atentados contra a vida. E tantas mazelas mais, tantos dramas.

Não são eles, porém, em si mesmos, piores do que os anteriores. Apenas serão problemas próprios, novos, o que é característico do tempo, que não se repete. E são, sobretudo, os que nos foram dados, aqueles diante dos quais temos de nos posicionar e agir. Nenhum tempo é (ou foi) perfeito, não há tempo melhor do que outro na história, tempo a que querer retornar – nostalgia que não passa de ilusão impossível. Este é o tempo que nos foi dado, aquele que poderemos fecundar com nossa virtude, ou perverter, com nossas precariedades, nossas incompetências, nossas baixezas.


Fonte: Diário de Pernambuco

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