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Luciana Grassano Melo: O golpe em versos

Por Luciana Grassano Melo

Professora de Direito da UFPE

Eu sabia que a qualquer hora que ligasse a televisão naquele dia, veria o mesmo espetáculo: senadores discursando suas infindas hipocrisias para justificarem as suas ridículas narrativas de que não era um golpe que davam, mas um impeachment que votavam. Ainda assim, liguei a televisão. E olhando aquelas imagens de um parlamento tão sombrio, comecei a escutar os sons de um jogral em minha cabeça, como um recital em que estando, a princípio, todo o grupo sentado, pouco a pouco, um a um se levanta, e declama um verso da poesia.

Olhava a televisão e não via o parlamento discursando, via os senadores recitando versos. Primeiro Jucá dizia: “Minha mão está suja”. Logo depois levantava Crivella: “Preciso cortá-la”. E lá vinha Cristovam Buarque: “Não adianta lavar”. E Collor dizia: “A água está podre”. E Marta: “Nem ensaboar”. Em seguida Anastasia surgia: “O sabão é ruim”. Aécio gritava: “A mão está suja”. E Serra sussurrava: “suja há muitos anos”.

Do outro lado da tela surgia Requião, que com voz grossa e firme denunciava: “O jornal governista ridicularizava seus versos, / os versos que ele sabia bons. / Sentia-se diminuído na sua glória / enquanto crescia a dos rivais / que apoiavam a Câmara em exercício. ”

E os inúmeros versos de distintos poemas de Carlos Drummond de Andrade não paravam de fazer rumores em minha cabeça, enquanto eu olhava, entre espanto e espasmo, a tela da TV. E àquelas imagens que eu via se misturavam outras que retive na memória, e eis que no lugar do Senado surgiu um outro cenário, de onde subitamente apareceu Marina para recitar de toada uma anedota búlgara: “Era uma vez um czar naturalista / que caçava homens. / Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas, / ficou espantado / e achou uma barbaridade. ”

E no lugar de risadas, eu escutava panelas se chocando como se batessem palmas para a anedota. E as imagens que surgiam eram agora da Câmara Baixa e lá no fundo aparecia Cunha para declamar: “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra”.

E a figura de Bolsonaro enchia toda a tela da televisão, enquanto recitava uma espécie improvável de mea culpa: “Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente estarei morto.”

Eu, muito triste, vendo todo esse espetáculo, não pude deixar de pensar em voz alta: “Os homens não melhoraram / e matam-se como percevejos. ”

Foi quando surgiu na tela o avião da FAB e eu escutei a voz inconfundível de Lula, que amparava Dilma no fim desse enredo: “Depois voltou para casa/ livre, sem correntes / muito livre, infinitamente / livre livre livre que nem uma besta / que nem uma coisa. ”

Depois disso, começaram a aparecer imagens do povo na rua, lutando, resistindo. E também da polícia. E eu saí dessa espécie de transe quando vi o rosto de uma jovem com um dos olhos sangrando. Com o seu olho bom ela encarou todos nós brasileiros e recitou o verso final: “Eu estava sonhando… E há em todas as consciências um cartaz amarelo: “Neste país é proibido sonhar”.


Fonte: Diário de Pernambuco

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