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Mãe de menino morto por febre maculosa em Belo Horizonte critica demora no diagnóstico

"Eu comuniquei em todas as unidades por onde ele passou que meu filho esteve no Parque Ecol
“Eu comuniquei em todas as unidades por onde ele passou que meu filho esteve no Parque Ecolgico e que foi picado. No me levaram a srio”, Desire Martins dos Santos, me de Thales Martins Cruz, de 10 anos, morto por febre maculosa. Foto: Cristina Horta/EM/DA Press

Ainda sob efeito da dor pela perda do filho Thales Martins Cruz, de 10 anos, vítima de febre maculosa supostamente contraída no Parque Ecológico da Pampulha, em Belo Horizonte, a garçonete Desirée Martins dos Santos, de 26, denuncia: “Houve falta de informação por parte da rede de saúde. Eu comuniquei em todas as unidades por onde ele passou que meu filho esteve no Parque Ecológico e que foi picado. Não me levaram a sério”. O depoimento de Desirée – que viu o menino ativo e saudável passar em 10 dias por um quadro de debilidade física até morrer – mostra o ressentimento pelo resultado trágico. Mais do que isso, para a mãe, evidencia que a saúde pública não se revelou preparada para seguir seus próprios protocolos (veja arte) e lidar com o diagnóstico de uma doença considerada rara, já que a última morte por ela na capital ocorreu em 2013.

“Como os sintomas não são específicos, ele começou sendo tratado para sinusite. Depois, disseram que estava com dengue, e assim ficou por três dias sendo medicado. Só quando chegou ao Hospital das Clínicas da UFMG (HC/UFMG) é que houve a suspeita e o tratamento para febre maculosa”, lembra a mãe, lamentando o fato de que, se Thales tivesse sido medicado nos primeiros dias, poderia ter sobrevivido.

A comunicação às equipes de saúde de que o paciente teve contato com áreas de risco para a presença do carrapato-estrela, que transmite a febre maculosa – como é o entorno do parque ecológico –  faz parte das normas do protocolo da própria Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte para combater a doença. Mas, segundo a mãe do menino, a informação não fez diferença nos primeiros dias.

Quando esteve no Parque Ecológico, o garoto participou de uma atividade recreativa em comemoração ao centenário do Ramo Lobinho dos escoteiros (para integrantes entre 6 a 10 anos). Na ocasião, um grupo de 150 crianças, lideradas por cerca de 70 adultos, participou de jogos e brincadeiras. De acordo com Marcos Gomide, diretor de Gestão Institucional da União dos Escoteiros do Brasil, Seção Minas Gerais, após as atividades, todas os participantes foram entregues às famílias.

No caso de Thales, parentes entraram em contato seis dias depois, informando que o menino apresentava mal-estar. O primeiro atendimento, segundo a mãe, foi no Hospital Odilon Behrens, seguido de passagem por uma unidade de pronto-atendimento e por um hospital filantrópico, até que em 2 de setembro foi transferido para o HC/UFMG, onde chegou a ficar internado em unidade de terapia intensiva (UTI) dois dias antes de morrer.

“A rapidez foi um choque muito grande para todos nós; um baque na família inteira. Ele era um menino saudável. Nunca teve nada. O sentimento que fica é de que a rede de saúde não está preparada. Os profissionais precisam prestar mais atenção às informações. Ouvir o que os pais estão falando é muito importante”, destacou Desirée.

Pressão

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o infectologista Unaí Tupinambás traça um panorama da situação. Na avaliação dele, não há um quadro de enfraquecimento da rede de saúde, mas um problema geral. “Vivemos recentemente uma epidemia de gripe H1N1, inclusive com aumento de mortalidade, e ainda enfrentamos uma epidemia de dengue, zika e chikungunya. Portanto, o sistema de saúde fica todo mobilizado para essas grandes doenças. As equipes não ficam concentradas em um diagnóstico raro”, afirma. Segundo ele, por isso, talvez seja difícil fazer a identificação precoce de uma doença cuja última morte foi registrada em 2013.

Para o especialista, no entanto, o prazo de uma semana, até se chegar à suspeita da doença, é tempo demais. “Mas logicamente que, diante dessa situação, as redes de BH e região metropolitana deverão estar atentas quanto a esse diagnóstico. E, com certeza, não teremos óbitos pela doença nos próximos anos, porque o tratamento é efetivo e a medicação é fornecida pelo Sistema Único de Saúde”, afirma.


Fonte: Diário de Pernambuco

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