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Nagib Jorge Neto: Com ira e talento

Por Nagib Jorge Neto

Jornalista

A ação se passava num campo de futebol, havia muitas bandeiras, verde e amarelo, mas os jogadores pouco ou nada tinham a ver com a bola, a partida, pois de forma violenta e direta atingiam o regime militar. A criação, rica no traço, na sátira, era prenúncio de talento, da arte de Clériston, agora reunida em livro – Minha verdade sobre a ditadura em 64 charges – cada qual com sua crônica. Naquela fase, num jogo bruto, perigoso, o chargista atacava a repressão, a ausência de liberdade e a propaganda oficial, num tom crítico, atual, que infelizmente tem semelhança com essa fase torta de “democracia”, ou da “República de Abril”.   

Duas ou três charges, hora de fechar o jornal, e não havia tempo para tirar a dúvida. Aquilo era um pepino, uma ousadia, e assim foi publicada a mais emblemática. Na semana seguinte, numa reunião dos editores, todos louvaram o talento do rapaz, mas um deles alertou – estava querendo brincar com fogo. Ninguém conhecia o jovem e o editor responsável informou que apareceu de repente, entregou o material, disse que queria colaborar e se mandou. Alguma apresentação? Nada, a não ser um paletó que pareceu arrumado de última hora, tentativa talvez de se mostrar alinhado. 

A saída então foi com base na evidência de que o rapaz tinha um traço excelente, ironia e graça na criação e podia publicar uma das outras charges, mas ele devia ser alertado para cair na real. Simples: “Olha, rapaz, a gente tem de ir devagar com esse andor, que o santo é de barro. E tem mais: a gente corre o risco de ser preso, mas no teu caso a coisa é bem pior, ninguém te conhece, pra te dar uma força. Põe tua ira no papel, mas sem dar tanta bandeira”.  

Na época, com censura e repressão, o Jornal da Semana tentava explorar temas que a grande imprensa evitava. Por essa brecha, entre 75 e 76, acolheu o projeto PAPA FIGO, de humor e denúncia, dos cartunistas Lailson, Ral, Paulo Santos e Bione. Daí, na função de editor, cabia vigiar os rapazes do PAPA FIGO, agravada com a entrada de Clériston. Ele jogava duro, ironizando o “Pra Frente Brasil”, dos tempos do Governo Médici e dando caneladas na democracia relativa do General Geisel. É claro que nunca cumprimos essa missão inglória, mas com maior vivência, malícia, cuidava de evitar que caíssem nas garras da repressão talentos como o de Clériston que agiam por entusiasmo, patriotismo, também uma santa ira. 

 

Depois dessa fase, a história muda um pouco com inserção de textos e charges de uma geração que só dispunha de publicações de circulação restrita. Com isto ganhou a imprensa, a sociedade, que tem em artistas como Clériston uma visão crítica e irônica de gente e coisas, num espaço que as vezes diz mais do que um artigo, editorial ou reportagem. As charges e crônicas reunidas no livro Minha Verdade são exemplo da excelência do traço, do seu poder de criação, do compromisso com o ser humano, na luta por uma sociedade mais livre e mais justa. É obra de chargista e cronista que enriquece o nosso fazer jornalístico e literário.


Fonte: Diário de Pernambuco

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