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O que pode ter levar um homem a matar a família e cometer suicídio? Conheça os sintomas do problema

Nabor Coutinho J
Nabor Coutinho Jnior, Las Khouri e os dois filhos do casal: vidas interrompidas de maneira trgica. Foto: Reproduo da internet/Facebook

Quatro pessoas de uma família são encontradas mortas em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Os corpos das duas crianças e do marido estão na área da piscina do prédio, indicando que teriam caído do 18º andar, a uma altura de aproximadamente 50 metros. Já o corpo da mulher é encontrado na cama, dentro do apartamento. Em uma carta assinada pelo homem há elementos que podem dar pistas do drama pessoal enfrentado por essa família, que chocou o país na semana passada: “Sinto um desgosto profundo por ter falhado com tanta força, por deixar todos na mão, mas melhor acabar com tudo logo e evitar o sofrimento de todos”.

De acordo com as primeiras investigações da polícia, o administrador de empresas Nabor Coutinho Oliveira Júnior, de 43 anos, matou a mulher dele, a publicitária Laís Khouri, de 48, a facadas, e os dois filhos do casal de mineiros, Arthur, de 7, e Henrique, de 10, a marretadas, antes de se suicidar. Os corpos das crianças foram lançados da janela, de onde Nabor teria pulado em seguida, na segunda-feira passada, numa tragédia que chocou o país.

Para Helio Lauar, coordenador da Residência de Psiquiatria Forense do IRS Fhemig, no linguajar da psiquiatria que analisa casos voltados para os tribunais, o chefe dessa família mineira que vivia havia cerca de 10 anos no Rio de Janeiro, cometeu o que se chama de homicídio piedoso, seguido de suicídio. “Nesse caso, a ideia de suicídio parece que antecede a de homicídio, apesar de os homicídios terem acontecido primeiro. Ou seja, o homem quer morrer, desistir e acha que a família não sobreviveria sem ele. Piedosamente, ele livra a família do sofrimento e a si mesmo das responsabilidades”, avalia o psiquiatra.

Pensar e abordar o tema da morte é sempre difícil, mas “faz parte do ser humano ter necessidade de falar sobre o assunto, de buscar entender o sentido da violência exacerbada de casos como esse”, analisa o psiquiatra e psicanalista Fernando Casula. Para ele, “por mais que se façam especulações em torno do caso, “nunca vamos saber de fato o que ocorreu com essa família porque existe uma realidade social e outra interna, psíquica, experimentada pelo chefe desta família mineira que podem ser diferentes uma da outra”.

Os dados colhidos na cena trágica mostram que possivelmente o homem que perpetrou os homicídios e depois se suicidou era atormentado por questões socioprofissionais e financeiras, que se sentia incapaz de responder à condição de chefe de família e se preocupava com sua “falha”, chamando para si a responsabilidade de todo o infortúnio. Curioso é perceber que segundo relatos de familiares, amigos, vizinhos e empregados, a vida familiar era tranquila e ele não apresentava, antes do fato, indícios de depressão ou de alterações do comportamento. “Não podemos afirmar que o suposto autor homicida suicida tivesse um transtorno mental diagnosticável. Ele não surtou no sentido médico, mas tomou uma decisão trágica, pensando que pouparia a si e aos seus de sofrimentos anunciados”, diz Lauar, lembrando que a esposa tinha parado de trabalhar em função de um diagnóstico de esclerose múltipla, o filho tinha problema na coluna e ele estava preocupado com os custos do plano de saúde.

Histórico
Para Casula, que esclarece que não conhece pessoalmente o homem nem seus parentes, há relatos de casos anteriores de suicídio e atos violentos no histórico familiar: “Não se pode julgar, mas a história de vida dele é marcada por passagens que com certeza o traumatizaram. Por maior que seja a crise econômica, nem todos os pais de família se sentem tentados a sair por aí cometendo atos violentos contra si e contra os outros”. Segundo o psicanalista, o chefe de família certamente deu sinais de que não estava dando conta de elaborar o problema pela via do diálogo, seja buscando a ajuda de amigos, de uma terapia ou mesmo da ingestão de remédios.

Pistas do suicídio
Conheça os sintomas e ajude a evitar que alguém se mate

. Pense nos problemas que a pessoa está enfrentando e avalie se eles são sérios a ponto de fazê-la pensar em se matar.

. Reflita se ela já tentou suicídio no passado. Caso tenham intimidade, você pode perguntar diretamente se ela já tentou isso antes ou se já cogitou fazê-lo.

. A morte de um ente querido, ainda mais se a causa foi suicídio, pode gerar essa ideia na cabeça de qualquer pessoa.

. Descubra se há histórico de suicídio na família da pessoa perguntando diretamente ou para os familiares dela.

. Tente descobrir se ela sofre ou já foi vítima de abuso, violência, bullying ou assédio. Qualquer uma dessas experiências pode fazer com que alguém queira se matar.

. Informe-se se a pessoa sofreu outros tipos de perda, como ser demitida, um divórcio, término de relacionamento ou perda súbita de privacidade com exposição da vida íntima na internet.

. Fique atento a doenças sérias e possivelmente incuráveis que causem dores ou cansaço crônico, pois o suicídio pode ser visto como o fim de um longo sofrimento.

. Ouça a pessoa.

. Alguém com o ímpeto de tirar a própria vida pode dar dicas do que tem em mente. Dê atenção ao que ela disser para descobrir se isso passa pela cabeça dela e ajudá-la antes de chegar às vias de fato.

. Preste atenção a frases depreciativas como “minha morte seria melhor para todos” ou “pelo menos vocês não teriam mais que me aguentar”.

. Além disso, veja se a pessoa sente que ninguém a entende ou se importa, provavelmente dizendo coisas como “ninguém se importa, mesmo”, “ninguém entende o que eu sinto” ou “você nunca entenderá”.

. Reconheça se ela demonstra falta de apego à vida. Dizer “eu não tenho razões para viver” ou “estou tão cansado de viver” são indícios.

. A falta de esperança também é um sinal a ser observado; se a pessoa diz “Agora é tarde, eu não aguento mais”, “Não existe mais nada a ser feito” ou “Eu só queria que a dor passasse”, fique atento.

. Repare nas emoções da pessoa.

. Prestar atenção aos sentimentos dela e às emoções por trás de suas atitudes pode ajudá-lo a identificar se ela tem intenções suicidas.

. Se ela não falar sobre o que sente, pergunte.

. Ela já manifestou sensações de fracasso pessoal, desespero ou culpa?

. Ela parece deprimida, ansiosa ou sobrecarregada? Detecte se ela vem chorando mais do que o normal ou se está aborrecida o tempo todo.

. Repare se ela está mais irritável, sempre de mau humor ou se coisas que normalmente não a afetariam a têm abatido com frequência.

. Veja se ela tem ficado mais alegre ou calma do que nas últimas semanas; isso pode significar que ela decidiu se matar e está se sentindo aliviada por acabar com a dor.

. Repare se ela lê, escreve ou fala coisas sobre a morte ou suicídio.

. Observe se ela não tem mais interesse por coisas que costumava gostar, como parar de frequentar um certo grupo ou de praticar uma atividade determinada.

. Dar objetos pessoais de valor para os outros sem razão aparente pode ser um sinal frequentemente ignorado.

. Comprar armas ou remédios e visitar lugares propícios como viadutos muito altos, topos de prédio, etc. são sinais sérios a serem considerados.


Fonte: Diário de Pernambuco

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