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Obesidade triplica em jovens brasileiros, aponta pesquisa

Sem saber, os pais podem estar assinando a sentença de morte precoce de seus filhos. Um estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) apresentado no Congresso Brasileiro de Cardiologia mostrou que, nos últimos 30 anos, a obesidade triplicou entre crianças e adolescentes de 10 a 15 anos. O excesso de peso na faixa etária infantojuvenil tem efeitos que vão muito além da estética — eles estão associados a um risco aumentado de doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes 2, entre outros. Esses problemas já se manifestam a curto prazo. Com o tempo, porém, agravam-se de forma silenciosa, podendo provocar infartos e acidente vascular cerebral (AVC) antes dos 40 anos.

No trabalho, os pesquisadores compararam taxas de obesidade, sobrepeso e pressão sanguínea de crianças e adolescentes registradas entre 1986 e 1987 a dados coletados neste ano. Eles voltaram às mesmas escolas em que a pesquisa foi conduzida há três décadas, no Rio de Janeiro. No total, há informações de 5.619 participantes, sendo 1.722 referentes ao levantamento de 2016. Nesse período, a obesidade passou de 6% para 18%, e o sobrepeso de 11% para 14%. Juntando obesidade e sobrepeso, a prevalência pulou de 17% para 32%.

Uma das formas mais perigosas de obesidade, a abdominal, foi detectada em 46% dos estudantes avaliados. Essa condição, caracterizada pela concentração de gordura nas vísceras, é a mais associada a risco aumentado de mortalidade em jovens adultos: os casos de óbito por doença cardiovascular chegam a ser três vezes maior na faixa dos 40 anos entre pessoas com obesidade central. A pesquisa Comparação de médias de índice de massa corporal entre os gêneros de escolares de 10-15 anos: Estudo do Rio de Janeiro II, da Uerj, também mostrou que 60% das crianças eram completamente sedentárias.

Segundo a coordenadora do trabalho, o resultado é preocupante. “Os adultos que eram obesos na infância e na adolescência são as maiores vítimas de morte por causas cardiovasculares, como infarto e derrame”, diz a cardiologista Andréa Araújo Brandão. “As altas taxas de obesidade nas crianças brasileiras as colocam em um risco maior de diabetes tipo 2, doenças cardíacas, baixa autoestima e até depressão”, destaca. O estudo mostrou que houve uma redução nos casos de hipertensão: passaram de 11% para 8%. Contudo, Brandão destaca que isso deve estar associado à mudança no método de medição.

“Já tem muito adulto jovem infartando e muita criança tomando remédio para hipertensão”, atesta Virgínia Weffort, presidente do Departamento Científico de Nutrologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Ela conta que, no ambulatório do Hospital Escola da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, onde atende, crianças muito novas chegam obesas e adolescentes de 10 a 15 anos apresentam quadros ainda mais graves, incluindo diabetes. Por trás disso, destaca, estão alimentação errada e falta de atividade física — problemas que vêm, literalmente, de berço. “O leite materno tem de ser exclusivo até os 6 meses. No caso das mães que não conseguem amamentar, ele tem de ser substituído por fórmulas. Mas muitas dão leite de vaca integral, que é muito gorduroso”, afirma. “Depois, quando começa a alimentação complementar, muitas vezes, ela não é tão balanceada. E, com 1 ano, a criança já está comendo o mesmo que o adulto”, diz.

Mudança de hábitos

A pediatra critica o fato de os pequenos não tomarem mais água. “É refrigerante ou suco de fruta.” Por mais que pareçam saudáveis, os sucos, na verdade, contêm muito açúcar. O melhor é consumir a fruta in natura, para aproveitar as fibras e os nutrientes, explica. Para Weffort, o aumento da obesidade infantil é um reflexo das mudanças socioculturais. “Pais e mães trabalham fora hoje em dia. Então, é mais fácil comprar comida pronta. Mas não é o mais saudável”, afirma. A médica, porém, lembra que cozinhar o básico em casa não é tão trabalhoso assim. “É muito fácil fazer arroz, feijão, salada, bife. Depende apenas de uma mudança de hábito do adulto. É melhor prevenir a obesidade desde o nascimento do que tentar modificar o que está errado depois”, afirma. O sedentarismo identificado pelo estudo da Uerj também vem de cedo. “As crianças não engatinham mais. Estão sempre no colo.”

Para o diretor de pesquisa da Sociedade Brasileira de Cardiologia e coordenador de Cardiologia do Hospital Prontonorte, Fausto Stauffer, os pais não percebem que estão colocando os filhos em risco porque as doenças associadas ao sobrepeso e à obesidade vão se instalando lenta e silenciosamente. “Se dá pouca relevância para isso porque o processo de aterosclerose (formação das placas gordurosas nas artérias) está começando lá na infância e pode demorar até 20 anos para acontecer um infarto, por exemplo. As estrias de gordura nas artérias iniciam na infância, mas isso parece não estar tão claro para os pais”, diz. Segundo o médico, porém, é possível reverter esse quadro adotando medidas saudáveis. “Esse estudo serve de alerta para todos nós. Precisamos mudar os hábitos nas escolas e em casa, reduzindo o consumo de carboidratos e diminuindo o sedentarismo.”


Fonte: Diário de Pernambuco

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