Os protestos, agora, vêm do outro lado da rua

Hoje tem protesto contra o governo Michel Temer. Até ontem estavam previstas manifestações em 18 capitais. Algumas estavam marcadas para começar ontem mesmo à noite.

Governantes costumam cometer o erro de minimizar protestos quando eles estão na fase inicial – exatamente o período em que deveriam lhes prestar mais atenção. Creio que há uma certa arrogância na postura, talvez explicável pelo fato de que quem está no poder julga que a população já se posicionou a favor dele, ao dar-lhe maioria na eleição e elegê-lo. Sob este raciocínio, todo protesto reunirá sempre “uma minoria”, além de não ser a via pela qual se escolhem os governantes.

As tentativas de diminuição do valor das manifestações seguem então o padrão de restringir os manifestantes a um determinado perfil.

Nos anos 1980, quando se lutava contra a ditadura, eles eram todos organizados por “comunistas”, “agitadores”, “baderneiros”, segundo o discurso oficial. Chegamos à democracia e o vocabulário ganhou nuances. Nos últimos anos, entraram as definições de que “são todos brancos”, “privilegiados” etc. e tal.

Agora entramos no momento das manifestações contra Michel Temer. Sua primeira reação foi desdenhar, dizendo que são obra de “grupos mínimos” e de “40 pessoas que quebram carros”. Até os aliados criticaram seu posicionamento. No caso temos ainda de lembrar que, diferentemente dos seus antecessores, ele não foi eleito. Chegou ao poder mediante um controvertido processo de impeachment – para muitos, ilegal.

Temer não teria, então, sequer o beneplácito daquele raciocínio do governante que julga que, por ter sido eleito, teve a maioria dos votos da população, logo toda reação contrária seria minoritária.

Em vez de menosprezar as ruas que se inflamam contra si, os governantes fariam melhor se desde o início procurassem saber o que está acontecendo. Por que aquelas pessoas estão dispostas a mobilizar-se contra ele, onde está a palha seca que não suportará o encontro com a fagulha?…

Sabemos todos que não há ingênuos nesta área. Quando começam as manifestações contra A ou B, inevitavelmente os grupos ou lideranças contra A ou B fazem o que for possível para aumentá-las. É da luta política, e independe de coloração política e ideológica. Mas é ingenuidade pensar que o simples fato de menosprezá-las vai reduzi-las. Costuma acontecer o contrário. Açula em vez de acalmar.

As manifestações não são um debate racional com tempo predeterminado para cada um dos contendores, e regras rígidas de participação. São ondas em busca de mais volume. Elas não são o meio pelo qual escolhemos quem vai nos governar, mas quando crescem vão criando obstáculos para quem governa. Provoca constrangimentos, reduz a capacidade de reação, cria um vácuo capaz de arrastar indecisos.

Neste momento, por exemplo, há um grito ecoando nas ruas por Diretas Já. Trata-se de uma medida implausível de ser posta em prática nas condições atuais. Só aconteceria mediante uma decisão do TSE, a renúncia do Temer ou votação no Congresso. Mesmo assim, o grito Diretas Já tem potencial para aglutinar descontentes.

Por enquanto, o descontentamento que se vê nas ruas é majoritariamente devido ao processo de impeachment. Mas pode crescer diante de medidas ou planos governamentais impopulares.


Fonte: Diário de Pernambuco

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