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Raimundo Carrero: Revolução literária no século de ouro: Osman Lins

Por Raimundo Carrero

Escritor e jornalista

No século de ouro da ficção pernambucana um nome surge com intenso brilho e genialidade: Osman Lins. Desde a estreia com Os Visitantes mereceu uma grande atenção da crítica literária em todo país, confirmando seu talento nas obras posteriores, sobretudo no maduro Avalovara, em que realizou uma profunda revolução na arte de narrar.

Não é por outra razão que o crítico Antônio Cândido assinala no prefácio: “Avalovara representa na literatura brasileira atual um momento de decisiva modernidade, porque o Autor – como diz a certa altura – exerce uma vigilância constante sobre o seu romance integrando-o num rigor só outorgado, via de regra, a algumas formas poéticas”.

Na verdade, Osman não queria apenas contar uma história – como se diz comumente com a ficção – mas enfrentar a condição humana e isso lhe custava não só o jogo linguístico, a ponto de reduzir personagens a símbolos gráficos dentro de uma estrutura fechada, radical e firme para ir além do puramente literário. Perceba-se, por exemplo, o começo do livro, em que explica como os personagens saem da mente do narrador e começam a se movimentar:

“No espaço ainda obscuro da sala, nesta espécie de limbo ou de hora noturna formada pelas cortinas grossas, vejo apenas o halo do rosto que as órbitas ardentes parecem iluminar – ou talvez os meus olhos: amo-a – e os reflexos da cabeleira forte, opulenta, ouro e aço. Um relógio na sala e o rumor dos veículos. Vem do Tempo ou dos móveis o vago odor empoeirado que flutua? Ela junto à porta, calada. Os aerólitos, apagados em sua peregrinação, brilham ao trespassarem o ar da terra. Assim, aos poucos, perdemos, ela e eu, a opacidade. Emerge da sombra a sua fronte – clara, estreita e sombria.” Um romance para quem entende de romance e não apenas de história.

Uma narrativa rica, cerebral e difícil, sem dúvida, sobretudo para aquele leitor acostumado com o meramente emocional, a exigir palavras que conduzam a uma história de aventuras, amor, ou loucura. Até porque a ficção não se preocupa, a rigor, apenas com a história ou com a contação de historias, mas com o enfrentamento da condição humana. Com a batalha que se trava no comportamento do ser, cheio de incertezas e de inquietações.

Vem daí toda a busca dos ficcionistas na invenção de linguagens, de enredos, de truques, que passam por Flaubert, Edouard Dujardim, Joyce, Faulkner, e todos aqueles que procuraram renovar a narrativa. Sem esquecer os pernambucanos do século de ouro.


Fonte: Diário de Pernambuco

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