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Sérgio Eduardo Ferraz: As duas armadilhas

Por Sérgio Eduardo Ferraz

Economista e cientista político

Para além do espectro da guilhotina da Lava-Jato – que promete retomada, com gosto de sangue, na esteira dos discursos de Carmen Lúcia, Celso de Mello e Rodrigo Janot, na cerimônia que inaugurou nova presidência no STF, da chegada ao açougue da “carne nova” de Eduardo Cunha, pronta para ser retalhada, com promessas de vertiginosas revelações, depois de sua queda do firmamento, e do midiático anúncio da denúncia contra Lula -, há duas armadilhas, no terreno pantanoso da política brasileira, que merecem mais atenção dos observadores.

A primeira é consequência do “maximalismo”, de sinal invertido frente às urnas de 2014, do programa econômico do governo que está aí, que pode nos conduzir rapidamente a um cenário de “sarneyzação” 2.0. Escrever rapidamente, para ser concreto, significa apontar para o início do segundo semestre de 2017. Se, naquela altura, como é bem possível, em vista do que se viu até aqui e do DNA de acomodação do PMDB, a EC do “teto” dos gastos se mostrar repleta de goteiras e infiltrações e a reforma da previdência parir um rato, a turma que recentemente adentrou o 3º andar do Palácio do Planalto vai sentir saudade dos jantares conspiratórios no Jaburu.

O “Ponte para o Futuro” e o imperativo de seduzir as elites financeiras paulistas se revelam hoje como arriscado “ovo da serpente” para o grupo político assentado na presidência. Foi dali que veio a compulsão de propor e aprovar conjunto desmedidamente ambicioso de medidas, sem respaldo do voto popular, em prazo relativamente curto, mexendo com aspectos vitais da vida do brasileiro comum (do trabalho à saúde, passando pela educação e pela previdência). Quando, alternativamente, com realismo, teria sido mais prudente desenhar a política econômica à luz das limitações de um mandato-tampão e com mais atenção à equidade na partilha de eventuais sacrifícios.

O perigo, a essa altura, quase óbvio, é que a lacuna entre desejo e realidade torne-se cada vez maior, abrindo as portas – quando as primeiras frustrações se confirmarem, em termos de incapacidade de aprovar no Congresso as propostas – para uma drástica reversão de expectativas. Um provável recrudescimento da crise econômica e social, às vésperas já do calendário eleitoral de 2018, não será coisa bonita de ver.

E aqui entra a segunda armadilha, tanto mais temerária quanto maior for o mergulho na crise propulsionado pela primeira (e, naturalmente, pelas feridas e consequências da própria Lava-Jato), que consiste no risco de entrarmos, à esquerda e à direita, no período de sucessão presidencial, com os partidos despedaçados, desmoralizados e sem alianças minimamente consistentes. Esse cenário, desnecessário dizer, seria o paraíso para aventureiros, com os quais caminharíamos para uma dantesca “cronificação” da crise, estendendo, dolorosamente, seus efeitos no tempo e embaralhando, ainda mais, as cartas de possíveis saídas. Não é certo que haja tempo de desativar essas duas bombas-relógio. Mas vale a pena tentar, em vista do tenebroso conjunto de implicações vislumbrado.


Fonte: Diário de Pernambuco

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