Valéria Barbalho: Um médico humanizado do País de Caruaru

Por Valéria Barbalho

Escritora

Recebi do advogado caruaruense Giovanni Mastroiani, via e-mail, um áudio engraçadíssimo. Nele, profissionais da saúde cubanos, que vieram trabalhar no Nordeste, dizem que estão desistindo dos seus cargos no programa “Mais Médicos” pois não entendem o que é dor nos quartos, espinhela caída, gastura, empachamento, escurecimento nos óios, íngua, passamento, bicheira, entojo, pereba, etc. Consequentemente, não conseguem tratar tais “doenças”.

Morri de rir com essa gravação e me lembrei das histórias de um grande médico que trabalhou no País de Caruaru, na década de 50: o Dr. Mário Medeiros, um especialista em gente nordestina. “Dotô Amaro”, como essa clientela o chamava, cuidava com carinho, atenção e respeito do povo simples que vinha dos brejos, principalmente nos dias de feira, para se consultar com ele. Não se embatucava com as queixas relatadas por esses pacientes no seu linguajar característico. Era um expert em nordestinidades. Se deliciava, contando aos amigos e mantendo a ética, as “ocorrências” mais pitorescas do seu concorrido consultório. Para homenageá-lo, meu pai, um desses amigos, registrou em artigos alguns desses “causos clínicos”, como os que seguem.

Certa vez, atendendo um velhinho, Dr. Mário perguntou: “o que o senhor tem?”. Inocentemente, o senhorzinho respondeu: “eu tinha uma rocinha, mas porém a mofina deu nela, fez um estrago da brucuta e agora eu num tenho nem o sumago de nada”. De outra feita o marido de uma paciente retorna, pós consulta, para dar notícias da sua mulher. Indagado pelo médico de como ela estava, o homem respondeu: “a muié tá tá e quá!”. Noutra ocasião perguntando a um rapaz se ele tinha prisão de ventre, de imediato ouviu a resposta: “não sinhô, inté que eu sorto muito”.

Porém, o caso mais conhecido do Dr. Mário, que virou, na época, lenda na cidade, foi a consulta de um casal de meia idade. Ao entrar na sala o homem foi logo dizendo: “dotô, minha muié tá sentindo muita dor na barriga”. O médico, depois de fazer as perguntas de praxe, disse que precisava examiná-la. Para tanto, orientou que a mesma tirasse a roupa, deitasse na maca e se cobrisse com o lençol. Para deixá-los mais à vontade, saiu da sala durante alguns minutos. Ao retornar encontrou a paciente deitada, coberta e o marido, em pé, ao seu lado. Dr. Mário começou, então, o exame. Quando foi palpar o abdome, avisou a mulher que, se ela sentisse dor, avisasse. Palpando a parte superior dessa região, perguntou: “dói aqui?”. A mulher não respondeu nada. Ele continuou palpando, próximo a região do umbigo e, novamente, perguntou: “e aqui dói?”. A mulher não deu nem um pio. Quando ia palpar a região abaixo do umbigo, o marido segurou firme a mão do médico e avisou: “Dotô Amaro, o senhor me adisculpe, mas daqui pra baixo deixe que eu incarco e o senhor pergunta se dói”. Maravilha!

Salve Dr. Mário Medeiros!


Fonte: Diário de Pernambuco

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