‘Xica da Silva’ faz 40 anos e Zezé Motta relembra bastidores do filme

Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Zezé Motta com um cartaz do filme que a consagrou (Foto: Anderson Barros / EGO)

O longa “Xica da Silva”, dirigido por Cacá Diegues e estrelado por Zezé Motta, completa neste domingo, 4, 40 anos. O filme, que conta a história da escrava que se casa com o contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas), enriquece e vira a primeira dama da cidade, levou a atriz ao estrelato.

Cartaz de Zezé Motta no filme Chica da SIlva (Foto: Arquivo)Cartaz do filme de Cacá Diegues (Foto: Arquivo)

No apartamento que um dia morou a escritora Clarice Lispector e onde vive hoje Zezé Motta, no Leme, na Zona Sul do Rio, a atriz falou sobre a importância da personagem em sua vida.

Dona de um tempo só dela, onde a correria definitivamente não tem vez, Zezé, hoje com 72 anos, convida a equipe para acompanha-la até a cozinha. No amplo espaço com cara e cheiro de casa de vó, ela prepara um café e conta casos. Depois, conduz seus convidados a uma mesa onde estão caprichosamente arrumados ali bolos e frutas. Zezé conta que o bolo de milho, o seu preferido, foi entregue pessoalmente a ela pelo dono da boleria depois que sua cliente famosa foi até a loja e não o encontrou mais para vender.

Sentada confortavelmente numa poltrona após beber um copo de refrigerante, a atriz abre aquele sorriso indefectível no rosto para falar da sua personagem mais marcante.

“O que admiro mais nela é o fato da Xica nunca ter sido uma escrava resignada, nunca ter aceitado a sua condição. Ela foi uma grande feminista”, analisa Zezé, que enfatiza: “Xica foi um divisor de águas na minha vida. Eu na época não era uma atriz conhecida e a partir dela me tornei popular.”

Para dar vida à escrava que vira rainha, Zezé foi indicada pelo então compadre Nelson Motta para fazer um teste para o papel. Após se submeter ao processo de seleção, ela seguiu para Salvador, onde passou um mês filmando “A força de Xangô”. Como naquela época não havia celular nem internet, para saber se tinha sido aprovada para o papel Zezé comprava todos os jornais existentes na época para descobrir se tinha passado.

A notícia tão esperada só viria ao término da filmagem, quando ela desembarcou no Rio, onde mora. “Estava almoçando qaundo o produtor do Cacá me ligou e disse: ‘Boa tarde Xica da Silva’. Enlouqueci, perdi a fome! Sai ligando para a minha família inteira! A imprensa estava atrás de mim e não conseguia falar comigo, pois a linha estava ocupada”.

As filmagens aconteceram em Diamantina, Minas Gerais, e Zezé passou os três meses sem deixar a cidade, concentrada na personagem. O grande desafio de Zezé não era viver uma escrava, pois ela já havia interpretado esse tipo de papel em outros trabalhos. A expectativa era quando Xica virasse rainha. “Aí aconteceu uma coisa muito interessante”, lembra Zezé. “Cacá (Diegues) percebeu que eu era muito dispersa e ficou de olho em mim. Quando ele me via com a equipe conversando e jogando baralho após o jantar, ele passava e só me olhava. Na mesma hora corria para o meu quarto para estudar a cena do dia seguinte“.

Zezé Motta atuando em Chica da SIlva (Foto: Arquivo)Zezé Motta em Xica da SIlva (Foto: Arquivo)

Emoção ao máximo

Cacá queria sua Xica perfeita e não media esforços para exigir de Zezé o seu melhor. Ela lembra que para imprimir o máximo de emoção na cena em que João Fernandes (Walmor Chagas) se despede dela para voltar a Portugal, o diretor a deixou isolada de todos. “Ele mandou que eu ficasse sozinha numa casinha que é o museu da Xica em Diamantina apenas com o texto da cena, água e café. Na porta, um segurança impedia a entrada de quem quer que fosse. Fiz um trabalho de memória afetiva pensando em tudo que havia me entristecido na vida e também em tudo que um dia poderia me deixar infeliz. Dali, saí direto para a cena e foi incrível”, lembra Zezé.

Diegues também colocou a paciência de sua protagonista à prova na cena em que Xica é impedida de entrar na igreja por ser escrava. “Reza a lenda que a produção recebeu uma ordem para me irritar. Estava um calor do cão! (Risos). Eu pedia café, pedia água, nada vinha, fingiam que não ouviam. Não me deixavam ficar na sombra. (Risos). Aí, na hora da filmagem, o próprio Cacá falou com o José Medeiros, diretor de fotografia, que ele mesmo iria filmar a cena. Eu estava o cão!”.

Reza a lenda que a produção recebeu uma ordem para me irritar”

Zezé Motta

Além de consagrar Zezé, o filme de Cacá também foi recordista de prêmios. Os troféus para a inesquecível Xica enfeitam a sala da atriz que com mais de 50 anos de carreira, quatro filhos, muitos netos e sobrinhos, atualmente vive mais da sua impecável voz do que do seu talento de atriz.

Cantora, narradora, mestre de cerimônia e eventualmente atriz, ela constata: “Não ganhei muito dinheiro nem com cinema, nem com TV, nem com música. Mas sou feliz assim. Não sonhei em ser atriz para ficar famosa nem para ficar rica. Foi coisa mesmo de gostar do ofício.”

 

Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Os troféus que Zezé ganhou como Xica da Silva (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)A cena de despedida entre o contratador e Xica retratada em um desenho (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Mais troféus por Xica (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Zezé Motta  (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)O Oscar Gay também a premiou por Xica da Silva (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Troféus da atriz (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Zezé Motta  (Foto: Anderson Barros / EGO)
Zezé Motta - casa (Foto: Anderson Barros / EGO)Zezé Motta  (Foto: Anderson Barros / EGO)

 


Fonte: Ego.globo.com

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