Últimas
anjo-velho-fmp-2

Artigo: Arte no Cemitério São João Batista (1) por Fernando Moura Peixoto

Pisa de leve a terra dos cemitérios, / Irmão. / Alguém disse que ela deve estar cheia de pensamentos. // Vê: aquele fogo-fátuo / Qual chama d’álcool, / A perder-se na amplidão, / Pode ser o clarão / Do último poema / Que ficou no crânio do último poeta. // Pisa de leve a terra dos cemitérios, / Irmão. / Alguém já disse que ela deve estar cheia de pensamentos.”

J. GALDINO (s/d), ‘Além das Lápides’, 1980.

Verdadeiras obras de arte escultóricas e arquitetônicas encontram-se no Cemitério de São João Batista, na Rua General Polidoro, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Lá estão sepultados os restos mortais de centenas de personalidades famosas da vida brasileira, em todos os campos de atividade.

Inaugurado oficialmente em 4 de dezembro de 1852 (165 anos em 2017), bem cuidado, limpo, seguro, com diligentes funcionários, a necrópole municipal, única existente na zona sul da cidade, nada fica a dever a seus congêneres no exterior, como o Père-Lachaise, em Paris, na França, um exemplo de turismo fúnebre.

O Cemitério de São João Batista é o primeiro sepulcrário da América Latina a ter mapeamento virtual, com imagens podendo ser acessadas no Google Street View. E um renomado historiador mensalmente empreende passeios guiados para os visitantes.

-Foto FMoura Peixoto

Os contrastes sociais, a temporalidade da vida e o derradeiro destino dos seres humanos – e das flores – estão explicitados neste pequeno e singelo poema que nos foi legado pelo ‘calon’ Jerônimo Guimarães, trovador cigano da Cidade Nova, que morreu em 3 de outubro de 1897:

Até nas Flores se encontra / A diferença da sorte / Umas enfeitam a vida / Outras enfeitam a morte.”

Umas nascem para adorno / De ricos salões doirados / Outras, mais tristes, ensombram / O retiro dos finados.”

Não admira, portanto / Bons ou maus fins dos viventes / Quando até as próprias flores / Tem destinos diferentes.”

O pesquisador paulista Marcelo Francisco (1966-) ressalta que “sobre a fundação do Cemitério de São João Batista repousa uma das mais intrigantes e interessantes histórias, até hoje carente de informação precisa e definitiva. O primeiro enterro ocorrido ali, em dezembro de 1852, é o da menina Rosaura, filha de escravos, e que viveu somente até a idade de quatro anos”.

Para que houvesse esse enterro era necessário que o proprietário registrasse o escravo como propriedade e lhe fosse dado alguma importância para o fato. Se pensarmos um pouco veremos que não era hábito dos senhores da época registrar crianças, a menos que fossem também (indiretamente) os pais.”

-Foto F Moura Peixoto

Então porque razão teria sido esse o primeiro enterro ali realizado? Essa é uma pergunta que está sendo muito estudada por ter sido exatamente o primeiro enterro feito e infelizmente também por ser o túmulo que não se conseguiu até hoje localizar – já estão promovendo investigações. A resposta mais plausível é a de um estudioso que se interessa pelo assunto – e que além dessa história, também tem outras de igual importância –, porém não quer ser identificado.”

Esclarece Marcelo que “Rosaura foi atropelada pela comitiva do imperador Dom Pedro II [1825 – 1891], que, comovido com a situação, inaugurou o cemitério antes do previsto justamente por essa razão. Era comum acontecer acidentes naquela época, assim como ocorre hoje, mas se tratando de crianças, e ainda escravas, a situação era mais delicada”.

Fato bem sanado a princípio por ter ocorrido em um momento conclusivo dos negócios do Império. Como não foi algo planejado e havia urgência, fizeram o enterro, mas sem pompa, por ser de um simples do povo e ainda escravo.”

No entanto, em outra versão, se afirma que a menina Rosaura era filha de comerciante, disfarçando assim a sua condição de escrava, para justificar o sepultamento em local nobre.”

Já outros féretros seriam preparados com antecedência preeminentes e é nessa parte onde entra a arte. Imagine que a própria pessoa escolhia a obra que iria enfeitar sua lápide e como gostaria de ser lembrada.”

Muitos artistas escultores foram solicitados para essa empreitada e assim nasce a arte sepulcral. Não é à toa que muitas sepulturas eram feitas em mármore e ornamentadas com santos de devoção das pessoas, normalmente católicas e também endinheiradas.”

Marcelo Francisco conclui: “Muitas obras fantásticas se veem nesse espaço e foram muito bem captadas ao longo de dois anos de trabalho, como confessa o autor da matéria, que prefere manter o anonimato”.

Em enterros, choramos em boa parte por egoísmo, porque nos tiraram um pedaço de nossa vida, ou porque sentimos de novo que a morte é a única certeza que não pode ser sonegada e iguala a todos, homens e mulheres, ricos e pobres, bons e maus.”

DANIEL PIZA (1970 – 2011)

-O cruzeiro-

Beautiful works of sculptural and architectural art are found in the Cemetery of St. John The Baptist, in Botafogo, Rio de Janeiro, where are buried the remains of hundreds of famous personalities of Brazilian life, in all fields of activity.

Officially opened on December 4th, 1852 (165 years in 2017), well maintained, clean, safe, with diligent employees, the municipal necropolis is the only one existing in the south zone of Rio de Janeiro city.

The photographic records were held between 2012 and 2013.

www.cemiteriosjb.com.br

Projeto Museu a Céu Aberto

Tels. (21)2527-0648/2439-6057

Os registros fotográficos realizaram-se entre 2012 e 2013. E Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791) embala a trilha sonora com o seu EXSULTATE, JUBILATE, K l65, a cargo da English Chamber Orchestra, regida por Raymond Leppard, com a participação da soprano Elly Ameling.

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

Meu vídeo: Arte no Cemitério São João Batista (Parte 1)

http://youtu.be/4Yup4p1vSVk

Comentaram:

Prezado amigo Fernando Peixoto ‘… até nas flores se nota a diferença da sorte / umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte …’.”

Acabo de ver seu belíssimo vídeo sobre o Cemitério São João Batista, onde você mostra grande sensibilidade e competência além de prestar uma justa homenagem a sua prima penedense Ilza Braga

Galvão, esposa do seu primo João José Peixoto Galvão, também penedense.”

Já estive nesse cemitério algumas vezes cumprindo o dever de acompanhar amigos e parentes a essa última morada. Nele estão vários alagoanos: Floriano Peixoto, os penedenses Elysio de Carvalho e o Barão do Penedo. Parabéns pelo seu trabalho e muito obrigado por ter me mandado essa preciosidade. Grande abraço.” FRANCISCO SALES, médico, literato e acadêmico, Penedo, AL.

Fernando. Muito boa a tua escolha. Há muitos túmulos lindos, cheios de esculturas de grandes mestres. e também há um clima de muita evocação. Um grande abraço.” LAURO GOMES PINTO, radialista, teatrólogo e produtor musical, Rio de Janeiro, RJ.

Ínclito amigo Fernando. Na transcendência espiritual, rumo à plenitude do ser, em detrimento da finitude da forma, eis que surge, fulgurantemente, a arte e o esmero da criatividade humana.”

Porém, a eternidade nada conserva além do Amor, pois o Amor é a eternidade! Por conseguinte, sabe-se que não devemos chorar pelas coisas boas que passaram… mas sorrir porque elas existiram. Com apreço.” MAURO PEREIRA DE LIMA CAMARA, literato e acadêmico, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando. Que bom receber essas joias poéticas que vêm com suavidade e passeiam com graça, profundidade e leveza, como Arte em Cemitério e Arte em Igrejas. Mais uma vez, muito obrigado e muito sucesso!” MARIA SITA ROCA-SOUZA, cantora, bailarina e professora de dança, Caguas, Puerto Rico.

Fernando, já fiz um trabalho desses na cidade de Penedo, Alagoas. Sou penedense e acabei de realizar um trabalho: um livro dos 100 anos do Colégio Imaculada Conceição. Fiz uma Revista dos 70 Anos do Colégio Diocesano de Penedo. Trabalho com pesquisa e organização de livro.” ALBERTO FERREIRA, pesquisador, Maceió, AL.

Oi, Fernando. Gostei demais da tua ARTE no cemitério. Pois é, quem tem olhos de poeta consegue detectar o belo onde a maioria dos mortais só vê o lúgubre. Sempre admirei as obras de arte do São João Batista e vistas através das tuas lentes elas ganharam mais beleza, pois tem todo um jogo de luz e ângulos certos que fazem toda a diferença. Muito legal!” LÚCIA SENNA, escritora e cantora, Rio de Janeiro, RJ.

Pessoalmente não gosto dos cemitérios. Aliás, tradicionalmente, os cemitérios ficam fora das cidades, não misturados com o mundo dos vivos. Os povos antigos respeitavam os mortos e davam-lhes a última morada, mas sempre fora da cidade, do mundo dos vivos. Nada de misturas.”

No entanto, há quem goste: a minha filha mais velha é louca por cemitérios e eu fotografo-os para ela durante as minhas viagens. Reconheço que há cemitérios artísticos e fantásticos, mas não sou fã. Mas nada contra. Abraços fraternos, grande Fernando!” RUY MOURA, sociólogo e editor do MB, Lisboa, PT.

Oi, Fernando. Esse vídeo é um dos que eu acho mais ricos, tanto no seu conjunto como em tomadas isoladas e com ângulos de muita beleza.”

Sou apreciadora da arte sacra e os cemitérios, também chamados campos santos, são os locais onde se reúne uma enorme quantidade (e variedade) de verdadeiras obras de arte em peças de mármore e metal. Parabéns pelo trabalho. Um beijo.” PATRÍCIA SANTORO, médica, Rio de Janeiro, RJ.

[Cemitério São João Batista] Des classificados! Vendo apartamento com vista para o futuro. Rua General Polidoro, 14/401. Aceito permuta na Glória. Abraços.” ABILIO FERNANDES, escritor e humorista, Rio de Janeiro, RJ.

Olá Fernando, sou de Porto Velho (Rondônia), e aprecio muito essa arte-tumular. Mas vendo esse seu vídeo, parte 1, me chamou atenção o túmulo que aparece no minuto 28:50. Me parece que existe uma ‘devoção’ à moça desse túmulo?” ARLAN DOS SANTOS ARGÔLO, Unir, Porto Velho, RO.

Mais um trabalho substancial do Fernando Moura Peixoto. Na verdade, algumas lápides são verdadeiras obras de arte… como as célebres esculturas de ‘anjinhos’. Na Índia, ainda hoje a morte é celebrada com uma festa, pois os parentes, ou amigos do falecido, consideram que ‘ele’ partiu e passou por todos os revezes da vida, e venceu, sob vários pontos de vista.”

É estranhíssimo dizer isso, mas o Cemitério São João Batista é uma paisagem curiosamente relaxante aos olhos do carioca. Alguns parentes meus estão enterrados lá.”

Uma curiosidade: na obra MacBeth do cineasta Roman Polanski, assim como na tragédia homônima original de Shakespeare, a ‘morte’ não estava propriamente em cemitérios, mas era representada pelas feitiçarias das bruxas terríveis. Da mesma forma, Polanski e Peixoto fizeram do fim definitivo algo não tão agourento assim…” CARLOS BILL, músico e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Fantástico, obras lindas, muita arte. História viva gravada para a eternidade, mas um lugar de muito respeito.” ANDREIA CARVALHO, via YT.

O assunto morte desperta em muitos um medo natural por não se ter resposta ao que chamamos sobrenatural, e tem sido um assunto muito estudado, porém, nunca conclusivo. As religiões de modo geral a abordam apenas como uma continuidade da vida em um plano mais elevado, em perspectivas que veremos em outra ocasião.”

Para este vídeo o foco é arte, beleza (ainda que seja no cemitério) e principalmente história. Fato é que o cemitério guarda em si muitas histórias e cada uma com peculiaridade única, desde vultos históricos como reis, presidentes, ministros e até pessoas do povo – comuns.”

Importante é que as pessoas que assistam ao vídeo também se interessem pelo texto que o segue, sempre bem minucioso e explicativo.”

Fernando, parabéns pela competência com que expõe arte e história com muita elegância e simplicidade no último momento da vida onde se pode contemplar alguma beleza.” MARCELO FRANCISCO, pesquisador e cantor, Rio de Janeiro, RJ.

Foto: FMPeixoto


 


 


 


 


 


 


 

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook