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Artigo: Um século de raquete na praia por Fernando Moura Peixoto

Memorialista e historiador… são coisas diferentes. O memorialista conta o que quer, o historiador deve contar o que sabe.”

JUAREZ TÁVORA (1898 – 1975)

Antes do surgimento do frescobol em Copacabana, inventado praticamente ao acaso em 1945 pelo paraense Lian Pontes de Carvalho no entender dele,uma brincadeira de moleque de praia– e muito bem difundido por Milton Cavalcanti (que trazia raquetes feitas no estaleiro em que trabalhava em Niterói), e do ‘esporte-sem-nome’, criado no Leblon, em 1943, por Walther Hartning, um judeu alemão, professor de inglês e de ginástica – apelidado ‘Mão de Sebo’ – havia nas praias brasileiras recreações congêneres nas quais se usavam raquetes.

Os praianos de antigamente costumavam impulsionar para o alto, sem muita técnica, uma bolinha, que podia ser ornada com penas – uma petequinha – utilizando tamboretes de pergaminho esticado ou pequenas raquetes encordoadas, de cabo leve e comprido, como no jogo da volante. Batia-se também em uma bola, presa por um fio a um peso depositado no chão, que ia de um lado a outro sem se perder. E tentava-se mesmo, a muito custo, se praticar o tênis na areia fofa da praia.

O TÊNIS DE PRAIA

Assim ocorria o ‘tênis-de-praia’, por volta de 1940, na Praia de Copacabana, em quadra montada defronte a um belo palacete – já demolido, como tantos outros que adornavam a urbanidade copacabanense, por obra e (des) graça de uma especulação imobiliária desenfreada e uma obtusa falta de visão de nossos governantes, que acabaram descaracterizando o bairro – nas cercanias da Rua República do Peru. Entre os fervorosos e esforçados adeptos do dificultoso ‘tênis-de-praia’ estavam Raimundo Dias Carneiro, ‘dona’ Carmem, Enedina Torres Soares, Alin Pontes de Carvalho (irmão do Lian, aquele que viria a ser, depois, o ‘pai do frescobol’) e inúmeros outros.

Dizia-se na época, em tom de galhofa, que a paixão pelo ‘tênis-de-praia’ era tanta, que alguns jogadores deixavam de comparecer ao trabalho a fim de praticá-lo. E que alguém lhes levava o livro de ponto para que o assinassem na praia.

-Posto Seis 1985(Arquivo FMP)

O VÔLEI-TÊNIS

Nos anos 1970, também na Praia de Copacabana, na altura da Rua Xavier da Silveira, veteranos tenistas jogavam o ‘vôlei-tênis’ em uma quadra dupla, demarcada na areia com fitas e bandeirolas vermelhas, próxima à calçada, sendo sua rede afixada um pouco mais alta do que no tênis.

As raquetes possuíam o cabo na proporção correspondente a 3/4 das de tênis, constituindo-se a cabeça de espuma de borracha prensada por duas madeiras compensadas e ovaladas. As bolas – propositadamente perfuradas para perderem velocidade –, regras e marcação de pontos eram as mesmas do tênis, mas jogava-se de voleio, como no frescobol, já que a bolinha de tênis não quica na areia. As duplas posicionavam-se assim no campo: um jogador mais à frente, perto da rede, e o outro guarnecendo a retaguarda.

O vôlei-tênis’ apareceu no Leme, ao final da década de 1950, introduzido pelo italiano ‘seu’ Mário (casado com a argentina dona’ Mary) – associado ao Leme Tênis Clube –, que tinha sido goleiro reserva da seleção de futebol do seu país, quando jovem, radicando-se mais tarde no Rio de Janeiro. As raquetes eram de tênis. Depois do falecimento de Mário, transferiu-se o esporte para a Rua Bolívar, organizado então pelo tenista Pimentel, da Associação dos Servidores Civis do BrasilASCB –, que armava e desmontava as redes.

O ‘vôlei-tênis’ também foi praticado na Praia de Ipanema, nos anos 1980, durante o verão, em rede defronte ao Country Club, por tenistas filiados à federação carioca – posteriormente, estadual –, que promoviam torneios de duplas. Entre os adeptos estavam Alvinho, do Fluminense, Ferreirinha, do Monte Líbano, Ayrton, Fiúza e Carlos Affonso, da AABB. Raquetista de escol e testemunha ocular da história do ‘vôlei-tênis’, Carlos Affonso (1931 -) é conhecido no ramo como Formiga’ e ‘Pipa’.

A tradição do vôlei-tênis’ persiste até hoje, mas um tanto diferente. A partir da segunda metade do decênio 2000, com o nome de beach tennis’ (ou beach tênis’), o esporte reúne centenas de aficionados em areias nacionais – os beachtenistas. As raquetes são feitas de carbono, kevlar ou grafite; garganta vazada; bolinha despressurizada, e rede na altura de 1,70m. Há diversas escolinhas onde se ensina o jogo, além de torneios e federações de BT em vários estados. E uma Confederação Brasileira de Beach Tennis, a CBBT.

-(Ipanema 1983 Foto FMP)-

OUTRO ESPORTE SEM NOME EM IPANEMA

Em meados da década de 1960, na Praia de Ipanema, à direita da Rua Joana Angélica, ocorria um jogo semelhante ao ‘vôlei-tênis’, mas com a rede alta, de badminton, e raquetes em madeira escura, pequenas e redondas, sólidas e maciças.

Atuavam três pessoas de cada lado – geralmente senhores –, com bolas felpudas e coloridas. Dois próximos da rede e um terceiro cobrindo a parte traseira da quadra, armada em cima, logo depois da calçada e das antigas dunas. Contavam-se os pontos igualmente como no vôlei.

O ZACCARO-GAME E O ZACCARO-BALL

Nos anos 1980, o ipanemense Sérgio Zaccaro, professor de Educação Física, frescobolista e campeão de ‘squash’, patenteou dois interessantes jogos alternativos baseados no frescobol: o ‘zaccaro-game’ e o ‘zaccaro-ball’, que podem se realizar na praia ou fora dela.

O ‘zaccaro-game’ é praticado por dois ou mais jogadores, que empunham um pequeno cabo com copo plástico acoplado na ponta. A bola deve ser lançada por um e recebida no copo pelo outro, que o devolve em seguida, e assim, sucessivamente.

No ‘zaccaro-ball’ os participantes encaixam na palma das mãos um par de pás de madeira em formato de mãos abertas, ‘as mãozinhas mágicasou ‘gêmeas’ – seguras por alças. A partida transcorre normalmente como no frescobol, mas impele-se a bolinha alternada e ambidestramente. É um esporte que se desenrola em uma quadra com rede e marcando-se pontos. Diversos países renderam-se à criatividade brasileira e importaram o ‘zaccaro-ball’.

O TAMBORÉU EM SANTOS

Versão tupiniquim do ‘tamburello’ – tradicional esporte italiano praticado então em quadras de saibro –, em São Paulo, nas praias de Santos, joga-se muito o ‘tamboréu’, implementado pelos irmãos Bruno e Luigi Donadelli, gringos que o adaptaram à areia por não encontrarem espaço propício onde desenvolvê-lo. As raquetes são ‘pandeiros’ de aro em madeira e tampa de couro, com cerca de 40 cm de diâmetro. Usam-se bolas de tênis, sendo semelhante a um frescobol com marcação de pontos, quadra e rede. Passa-se o tamboréu de uma mão para outra, indistintamente, quando a bola vem inversa.

Bastante popular em Santos desde os anos 1930, se fazem campeonatos e existem federações. O emocionante ‘tamboréu’ reúne grande número de praticantes – ultrapassando a dois mil – de todas as idades. Exigindo preparo físico, é considerado “o esporte mais santista de todos”. Destacam-se atualmente as equipes do Fluminense, Independente, Atlântico, Tamoio e Portuários.

Tamborelistas e sua história podem ser vistos no documentário Tamboréu – Genuinamente Santista’, com 40 minutos de duração, dirigido por Raquel Pellegrini em 2009. Ou ainda no site www.tamboreu.com.br.

A RAQUETINHA NO GUARUJÁ

Também em São Paulo, nas praias do Guarujá, de areia dura e batida, acontece a ‘raquetinha’, um frescobol em campo demarcado por fitas, reduzido e adaptado do tênis, com a rede baixa.

Na Praia da Enseada, defronte ao famoso Hotel Casa Grande, organizam-se competições de raquetinha’. O saudoso Luciano do Valle (1947 – 2014), em seu antigo programa dominical esportivo, já promovera e transmitira pela TV-Bandeirantes alguns desses torneios no verão, que servem de aperitivo a disputas tenísticas no lugar.

Uma curiosidade: diversos jogadores da ‘raquetinha’ dão-se ao luxo de contratar garotos do local só para apanhar e devolver as bolas perdidas.

O FRESCOBOL DE COMPETIÇÃO

"E pro frescobol, nada? Tudo! O mais belo esporte. Ágil, elegante, simples, se joga seminu (a) junto do mar. Além disso, tem uma superioridade indiscutível sobre qualquer outro esporte. É esporte mesmo, praticado pelo simples exercício do espírito lúdico. Até hoje, felizmente, não apareceu nenhum idiota pra inventar contagem de pontos no frescobol. O único esporte em que ninguém ganha.”

– MILLÔR FERNANDES (1923 – 2012)

(arquivo FMPeixoto)

No início de 1990, em Ipanema e na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o empresário e vice-campeão estadual de frescobol original Jorge Brisson, de 32 anos, lançava o ‘frescobol-de-competição’ (ou ‘flexbol’, termo logo descartado), com ampla repercussão na mídia, saindo até nas colunas de Ibrahim Sued (1924 – 1995) e Ricardo Boechat (1952 -), ferrenhos detratores do frescobol.

Encetou-se a campanha Frescobol, Defenda e Saque Essa Ideia!”, idealizada pela incipiente AFERJ, Associação de Frescobol do Estado do Rio de Janeiro. O evento recebeu o apoio da Fundação Rio Esportes, RIOTUR, 23º BPM e ASPERJ, Associação de Surfe de Peito do Rio de Janeiro, vinculada ao CND.

O jogo consiste em um frescobol competitivo praticado na areia quente, numa quadra de 14 metros de comprimento por quatro de largura. E traves de 2,30m (largura) por 1,70 (altura) de cada lado, guarnecidas de rede, como no futebol.

Disputa-se uma melhor de três ‘sets’, de quinze pontos cada um, contados diretamente, sem o sistema de vantagens. O objetivo é acertar a bolinha com uma raquetada no gol do adversário. Por se desenrolar no calor da areia quente, muitos o apelidaram de hot-ball ou ‘quentobol’.

Realizado na Barra, em 18 de fevereiro de 1990, em frente à famosa barraca de sanduíches naturais do ‘Pepê’ (Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes, 1957 – 1991), o primeiro torneio de ‘frescobol- de-competição’ teve como vencedor o tenista profissional Alexandre Katz, primeiro colocado no ranking carioca.

Jorge Brisson chegou a excursionar pelo Brasil, divulgando a novidade. No entanto, boa parte dos frescobolistas ortodoxos, que não admitiam marcação de pontos no frescobol, desaprovou a invenção. E, irreverentemente, a cognominaram ‘bobo-bol’.

[Para se conhecer o genuíno frescobol, sem regras nem competição, jogado livremente no frescor da beira d’água, basta acessar ‘Frescobol Vídeos’ no YouTube.]

(Ipanema 1983 Foto FMP)-

A PELOTA BASCA E O FRONTÊNIS

JOGO DE PELOTA. Esporte praticado sob várias formas, de origem basca, possivelmente igual à do tênis e que se deve buscar nos jogos comuns dos séculos XV e XVI, na França: a ‘longue paume’ e a ‘courte paume’. Sob qualquer de suas modalidades, tem por fundamento atirar uma bola contra uma ou mais paredes, com marcações próprias, alternando-se os adversários no arremesso e sendo a contagem de pontos feita em função de cada erro na resposta da bola, ou, ainda, se esta cair fora dos limites demarcados.”

ACHILLES CHIROL (1932 – 2011) inEnciclopédia Barsa’, 1964, 1ª Edição.

No Rio de Janeiro a pelota basca’ foi introduzida por volta de 1890 por Antônio Pereira Torres, um português casado com espanhola. Importador e exportador de frutas e peixes, ele era dono de restaurantes e um dos sócios do antigo Mercado de Peixe, na Praça Quinze. O comerciante levou o jogo – originário da região da Gasconha, “a pátria do ‘foie gras’ e do conhaque ‘Armagnac’”, entre o sudoeste da França e o norte da Espanha – para o Clube de Regatas Boqueirão do Passeio, fundado em 21 de abril de 1897, e localizado à beira-mar, na Rua Santa Luzia, defronte à igreja, na praia do mesmo nome, no centro da cidade – multiesportivo, a quinta agremiação mais popular de então.

Praticada em quadra fechada, com uma bolinha de núcleo de borracha, recoberta de lã e linho, e forrada com pele de cabra, que era atirada contra um muro principal, utilizando-se uma chistera, cesta côncava de vime trançado, colocada na mão e firmada no braço. Aguardava-se o rebote da bola, que devia então ser recolhida na cesta e arremessada novamente pelo adversário antes que tocasse o piso pela segunda vez. E assim por diante. A pelota basca – vasca, ‘jai-alai’ ou chistera – perdurou naquela agremiação até 1910, quando faleceu Antônio Torres.

As cestas do esporte foram sendo trocadas por raquetes de madeira – semelhantes às de frescobol –, com as quais se lança a bola, de borracha negra, de encontro à parede – frontis, substantivo latino que significa “fronte, testa, frente, frontispício, fachada”. É o frontênis, a versão com raquetes do primitivo frontão manual – ‘pelota manual’, ‘jogo da pela’, ‘jogo das palmas’ ou ‘jeu de paume’.

Nos anos 1940, com o aterramento progressivo da área, demoliu-se a sede náutica do clube, construindo-se outra, próxima do Aeroporto Santos-Dumont, ao lado do Museu de Arte Moderna – MAM –, na Rua Jardel Jércolis, 50, na Glória. E o uso e costume do frontênis permaneceram no Boqueirão do Passeio, que se situa em estratégica confluência entre a Zona Sul e o Centro do Rio.

-Foto FMPeixoto-

No dia em que o homem se tornar inteligente e efetivamente livre, o esporte vai ser uma aferição exclusiva da autossuperação com a ajuda do outro, na condição de solidário e não de adversário. Deverá empenhar-se o máximo e o melhor que saiba. Como solidário e não como adversário, os desempenhos desportivos melhorarão enormemente.”

(…) Chegará o dia em que, eliminada a competição, o homem encontrará prazer no esporte? Sonhando com ele, imagino-o, porém, impossível. Pelo menos no próximo milênio…”

ARTUR DA TÁVOLA (1936 – 2008)

Texto: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

Comentaram:

Seu texto é tão rico quanto os Playboys d'aquela época, quando vagabundagem era coisa séria e contava-se como tempo de serviço.”

Eu, por exemplo, aposentei minha raquete com 30 anos de praia, pelo então ‘I.A.P.E.T.E.C.A.’. Abraços.” ABILIO FERNANDES, empresário, escritor e humorista, Rio de Janeiro, RJ.

Bom dia, Fernando. Salvei seu artigo para usá-lo em sala de aula, quando surgir a oportunidade! Vejo que você atua em diversas áreas de observação! Isso é muito bom! Abraço.” FRANCE GRIPP, professora, escritora e literata, Belo Horizonte, MG.

Prezado jornalista Fernando Moura Peixoto. Muito grato pelo seu artigo ‘Um Século de Raquete na Praia’. Interessante a evolução desse esporte. Não sabia que fazia tanto tempo. Abraços.” HELIO BEGLIOMINI, médico e literato e acadêmico, Tremembé, SP.

Fernando, sempre que tenho um tempo leio os seus artigos… Fico imaginando onde você acha esses assuntos.”

Outro dia te vi na rua, cheio de pastas, chamei, mas você não escutou. Vai ver estava ligado no texto que deveria ir escrever. Bem, amigo, agora vou tratar de ler mais um pouco. Abraços.” JORGE AMADO GONÇALVES, economista e enólogo, Rio de Janeiro, RJ.

No cotidiano a captação de histórias dentro de histórias é perceptível somente aos que olham com esmero e afiado apuro todos os detalhes que remontam e contam fatos desconhecidos do ser humano comum e limitado.”

Poucos são os que enxergam além das informações visíveis e é aí que entra o verdadeiro contador de histórias, desvendando, através de uma narrativa jornalística, fatos que somente eles sabem contar, como verdadeiros escribas do tempo.”

Parabéns Fernando, por esse apurado senso e sensibilidade com que emerge na visão comum e consegue remeter seus leitores a um passado recente e cheio de mistérios!!!” MARCELO FRANCISCO, pesquisador e cantor, Rio de Janeiro, RJ.

 


 


 

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