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Artigo: Vossas belas mãos (Tetralogia) por Fernando Moura Peixoto

E as mãos de Eurídice vinham coleantes, suaves, ternas, acariciantes, mãos plácidas, serenas. Eu as cobri de anéis e de pulseiras. Aquelas mãos conheciam o segredo da expressividade. Mãos fugidas da estátua de Vênus, mãos admiráveis! Naquelas mãos cabiam os mais belos sonhos, os mais elevados ideais. Naquelas mãos havia o mistério do acorde não soado. Mãos pedindo harpas, mãos pedindo asas, mãos clamando preces, ternura, e amor. Mãos… As mãos de Eurídice! Mãos pedindo preces…”

– PEDRO BLOCH (1914 – 2004), ‘As Mãos de Eurídice’, 1949.

-(Foto Fernando MPeixoto)-

A beleza e a expressividade de mãos femininas naturalmente captadas em intervalos de seu labor diário, no comércio e ruas da zona sul do Rio de Janeiro – principalmente no bairro de Botafogo – entre 2012 e 2014, com uma câmera Sony DSC-W570.

Um documento fotográfico sobre a personalidade das mãos femininas em todos os matizes. Francas, espontâneas, longilíneas, carnudas, macias, suaves, escolhidas pessoalmente. Uma árdua empreitada criativa que envolveu o teste de fotogenia’, em que a maioria das mãos teve que ser acarinhada pelo fotógrafo – algumas, várias vezes – em seu primeiro vídeo no YouTube (e a primeira postagem no YT a gente nunca esquece).

Os adeptos da manolatria’ (culto das mãos, um fetiche) adoraram. Foram tantos os elogios que uma tetralogia aconteceu – ‘Mãos de Eurídices’. Mais três obras vieram então, constituindo-se numa saga das mãos’ e no imaginário sobre o que são capazes de realizar as femininas – delicadas, sensuais, amorosas, cativantes, espalmadas, as pequenas veias visíveis, azuladas, bailarinas.

Companheiras, solidárias, esperançosas, eloquentes, são mãos que afagam, acariciam, labutam, embriagam, dão prazer e tornam cor-de-rosa a vida da pessoa amada. Mãos fraternais, brincalhonas, amantes – um must de unhas coloridas e dedos compridos, prontos a ‘dar o bote’ e arranhar os corações masculinos (em tempos de versatilidade e relatividade, os femininos também) ‘y otras cositas más’.

-(Foto Fernando MPeixoto)-

As tuas mãos tão puras e repletas / de carícias, tão finas e perfeitas, / enchem de inspiração a alma dos poetas / e se tornam sublimes sendo eleitas.”

Os dedos frágeis se tornaram setas, / são dez pontas de estrela à terra afeitas, / para atingir os corações de estetas, / vencendo leis e códigos e seitas.”

Elas tiveram meus melhores beijos / e me prenderam, carinhosamente, / em cadeias de afetos e desejos.”

Um dia, as apertei em despedida / e hoje ainda acenam para o triste ausente, / chamando-o para o sonho e para a vida.”

TOBIAS PINHEIRO (1926-), ‘As mãos’, in SONETOS, Edições Galo Branco, 2006.

El Maestro’ Oswaldo Guayasamín (1919 – 1999), grande artista plástico equatoriano que retratava expressivas faces e mãos angustiadas, súplices, tortuosas, simbolizando a discórdia e a intolerância entre indivíduos, povos e nações, afirmou que “um dia haverá paz no mundo e todas as pessoas poderão se dar as mãos, um dia…”.

(Foto Fernando MPeixoto)

Sem dúvida, um vídeo agradável de ver e muito bom de ouvir. Como fundo musical, o clássico ‘Misty’ (1954), de Erroll Garner (1923 – 1977) e Johnny Burke (1908 – 1964). Popularizada em 1958 pelo cantor Johnny Mathis (1935), ‘Misty’ é aqui brilhantemente interpretada na versão original pianística por Henri Pélissier (s/d).

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

Tetralogia ‘Mãos de Eurídices’:

Vossas Belas Mãos 1 – http://youtu.be/AnumdNMQzlk

Vossas Belas Mãos 2 – http://youtu.be/ve-47EWI8FE

Vossas Belas Mãos 3http://youtu.be/dxl82XL8TOc

Vossas Belas Mãos 4http://youtu.be/ycMdYG3OexU

(Foto Fernando MPeixoto)

Comentaram:

Bonito trabalho, Fernando. Mãos à obra.” LAURO GOMES PINTO, radialista, teatrólogo e produtor musical, Rio de Janeiro.

Fernando amigo. Tema criativo e que me sensibiliza muito… As mãos! A beleza das femininas, sua delicadeza, e do imaginário sobre o que são capazes de fazer…
Grato pelo precioso brinde em fundo musical (
‘Misty’) muito bem escolhido… Parabéns! Abraços.” CARLOS NATHANSOHN, designer de superfície, Rio de Janeiro, RJ.

Caro Fernando Moura Peixoto. Lindo trabalho, realmente gostoso de se ver, bom de ouvir – ‘Misty’. Parabéns. Forte abraço.” SÉRGIO PITAKI, médico, literato e acadêmico, Curitiba, PR.

Estimado Fernando Moura Peixoto. Parabéns pelo seu belo trabalho, que reúne um documentário fotográfico amplo sobre mãos, de diversas cores, idades, posturas e jeitos. Ao que pude observar, parece que todas são femininas. Uma vez mais meus parabéns pelo seu trabalho! Abraços!” HELIO BEGLIOMINI, médico, literato e acadêmico, Tremembé, SP.

Muito bonito. É um tema que lembrou o pintor Oswaldo Guayasamín.” CÉSAR MAIA, economista e político, Rio de Janeiro, RJ.

Oi, Fernando. Gostei muito do teu trabalho ‘Vossas Belas Mãos’, tanto do primeiro quanto do segundo. Continue e vá em frente. Tens talento e isso é o que importa!” LÚCIA SENNA, escritora e cantora, Rio de Janeiro, RJ.

Gostei muito do seu primeiro vídeo. Ficou muito bom. Parabéns! Com um fraterno abraço.” MARIA DE NAZARETH FONTOURA, aposentada, Rio de Janeiro, RJ.

Obrigado pelas imagens: são mãos belas, sensuais e cheias de personalidade.” RICARDO TACUCHIAN, músico, maestro e compositor, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando, muito lindo! Há uma música de Moacyr Franco (‘Balada das Mãos’), não sei se você conhece, eu acho belíssima! Como a beleza das mãos vai além do visual, porque são ornadas de profundos significados… Abraços.” CEIÇA PAIVA, professora, Natal, RN.

Lindo ‘Vossas Belas Mãos’! Isso me lembra a minha infância! Beijos.” MARIA LÚCIA DAHL, atriz, escritora e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Erroll Garner, aquele pianista de fraseado ultrassofisticado… nada mais apropriado para sublinhar esse empolgante, vital documentário que contém tantas palavras que milhares de ‘cariocas da gema’ querem dizer, mas Fernando Peixoto se antecipa e o faz, na sua habitual e brilhante, expressiva, maneira estilística.”

Observo muito as mãos de cantoras de jazz segurando o microfone; uma engraçada (não debochando, lógico) ‘mão com estilo’ (kkkk) é a da cantora Leny Andrade, que quase sempre fica mexendo os dedos da mão que circunda seu microfone, enquanto canta.”

Mãos que tornam nosso dia a dia mais fácil… Fernando, você é um grande artista ‘underground’, não há como negar!” CARLOS BILL, músico e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Lindo e sensível trabalho! As mãos que se calejam para construir o mundo… aqui tão diversamente apresentadas… no cotidiano, em contextos de festa… de trabalho! Gostei!” MAGALI KLEBER, Universidade Estadual de Londrina, UEL, Londrina, PR.

Excelente abordagem, Fernando. O que você mostra tem muito valor. Espero receber, de suas mãos, por aqui, cópia deste meu comentário, que remete a minha infância, que graças a Deus, esteve sempre em boas mãos.”

Assisti, quando criança, ao monólogo magistralmente interpretado pelo ator Rodolpho Mayer, (pelo tempo passado deve ser com ph mesmo) ‘as mãos de Eurídice’, assim, minúsculas, suaves, delicadas, afáveis, sensíveis, expressivas, cativantes, carinhosas, confortantes, caridosas, por vezes suplicantes; cujas outras mãos, até então anônimas, acariciavam deliciosamente teclas ao piano de fundo; fazendo-nos compreender a exata dimensão desta preciosidade em nossas vidas, o real significado em mantermos as mãos limpas para um bom conviver, asseadas para afagar aos que delas necessitarem, e assim prontas, para o aplauso aos que nos merecem, e isentas para repelir àquelas que não nos induzem à alegria, a consideração, a um simples e respeitoso gesto, ou um simples aperto de mãos.”

pt saudações! ABILIO FERNANDES, escritor e humorista, Rio de Janeiro, RJ.

-(Foto Fernando MPeixoto)-

Quero a alegria de um barco voltando / Quero ternura de mãos se encontrando / Para enfeitar a noite do meu bem…”

DOLORES DURAN (1930 – 1959), ‘A Noite do Meu Bem’, 1959.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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