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Duciran Van Marsen Farena: Fracasso olímpico

Por Duciran Van Marsen Farena

Procurador regional da República

Nem toda a propaganda positiva, estimulada pelo governo e por setores da mídia, pode ocultar o grande fracasso que representou para o Brasil a Olimpíada, em que pesem as deslumbrantes cerimônias de abertura e encerramento (mas festas o Brasil sempre soube fazer bem). A homenagem aos tesouros arqueológicos do Parque da Serra da Capivara veio ao mesmo tempo das notícias do fechamento do parque por falta de recursos federais. As arenas de primeiro mundo ainda aguardam as investigações em curso sobre desvios de recursos.

Do ponto de vista de legado, para o esporte, educação ou turismo, espera-se o mesmo dos Jogos Pan-Americanos ou da Copa: nenhum, além do custo de manutenção dos elefantes brancos. Mas nem é disso que trataremos, mas apenas de um aspecto: o quadro de medalhas. O Brasil passou longe da meta de chegar aos 10 primeiros, tendo obtido apenas duas medalhas a mais do que em Londres.

Aqui se revela, à parte os contrastes da festa (que afinal, foi feita pelos Bolt e Phelps, com raras e gratas exceções brasileiras), o verdadeiro fiasco, se levarmos em conta o quanto o país investiu para melhorar sua posição desde 2012 (e não a renda per capita, como tentam justificar). Para não falar no tamanho da delegação, a segunda maior depois da dos Estados Unidos: 462 atletas.

De acordo com o Uol, o Brasil investiu na preparação para as Olimpíadas R$ 3,19 bilhões, sendo R$ 900 milhões de patrocínio de estatais, R$ 790 milhões para os atletas e federações, e R$ 217 milhões por meio das Forças Armadas. O Reino Unido, segundo lugar no quadro, com 67 medalhas, 27 ouros, investiu R$ 1,5 bilhão, metade do Brasil. A Alemanha, R$ 500 milhões.

A parte tão largo investimento para um país carente, que tem outras prioridades, a única conclusão é que nenhum outro investiu tanto para um retorno tão pífio. A coisa fica ainda mais desproporcional se considerarmos que 70% dos pódios foram obtidos por atletas patrocinados pelas Forças Armadas, com a menor fatia dos recursos. O motivo deste fiasco é um só: falta de meritocracia. As confederações insistem em investir em atletas já conhecidos, ao invés de se darem ao trabalho de descobrir e treinar novos talentos (além de que isso implica em maiores custos, reduzindo as disponibilidades para os dirigentes, moldados no exemplo da CBF, Fifa…).

Os patrocinadores seguem a mesma lógica: querem nomes com alguma consagração, ainda que local. O resultado é que atletas que já demonstraram inúmeras vezes que não têm estatura para jogos olímpicos estão sempre tendo uma segunda chance. Exemplo: Fabiana Murer. Não achou a vara em Pequim, soprou um vento contrário em Londres, agora sequer chegou a se classificar por uma lesão (mas insistiu em competir…).

A única exceção são as Forças Armadas, onde efetivamente vale o desempenho (mesmo assim sofrem críticas por só prepararem atletas prontos). Num regime de meritocracia, como o britânico, quem não mostrou resultado não tem segunda chance: nada de coitadinho, deve dar lugar a outros. A verba é cortada, dinheiro público somente é investido em esportes e atletas que demonstram potencial e resultados. Como se justifica que a natação brasileira vá com 33 atletas e não volte com nenhuma medalha? O fato de que todos terão novamente uma chance na próxima. E se não der, na seguinte.

A federação continuará irrigada com recursos públicos abundantes e as delegações, inchadas de gente sem resultado. E depois de diversas olimpíadas a seco, nem por isso os fracassados se afastam: tornam-se preparadores, diretores, etc. Para passarem aos novos seus mesmos vícios. Por isso mesmo, daqui a quatro anos e mais três ou quatro bilhões dos combalidos cofres públicos, não se deve esperar maiores conquistas para o Brasil, nesse sistema distorcido pelo excesso de dinheiro e falta de mérito – à única exceção dos atletas militares. É só esperar para ver.


Fonte: Diário de Pernambuco

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