Últimas

Fernando Araújo: Para além dos instintos

Por Fernando Araújo 

Advogado e professor de direito

Quando, em janeiro de 2009, Barack Obama tomou posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, eu estava lá com minha mulher, Maria Letícia, e minha filha, Ana Luíza, recém-aprovada para cursar direito na UFPE. Fiz questão de viver aquele momento histórico: testemunhar a posse do primeiro homem negro a governar a maior potência militar, econômica e cultural do planeta. Alimentei teimosamente a esperança de que o mundo daria saltos no processo civilizatório a partir dali. De boa convivência entre os povos.   

Nos degraus do Lincoln Memorial ficamos contemplando, comovidos, a alegrias do povo na rua. Lembramos juntos do discurso, ali mesmo, quase 50 anos antes, de Martin Luther King, o qual ajudou a mudar a América. King dizia ter um sonho: o da igualdade entre os homens. Um ano depois do seu assassinato, foi aprovado o Civil Rights (Ato dos Direitos Civis), e no ano seguinte, o Voting Rights (Ato de Direitos do Voto).  

O sonho do Pastor também foi expresso pelo meu fraternal amigo e poeta Thiago de Mello nos seus Estatutos do Homem: – Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora -. Pois não é que o candidato Donald Trump busca destruir todo esse esforço de vida civilizada! O que ele disse sobre as mulheres é inaceitável, mas dá bem uma ideia do que o dinheiro e o poder podem provocar em algumas pessoas. 

Rousseau ensina que o homem deve ir além dos seus instintos. Diferentemente dos irracionais, escravos do instinto indomável, o homem pode e deve transcender a sua natureza. Aperfeiçoar a consciência ética do viver coletivo, pois a ética é a arte da convivência e a liberdade a sua condição. A cada passo temos que deliberar sobre o que será ainda melhor e mais importante para a convivência. E, para tanto, precisamos buscar de forma permanente a excelência de nós mesmos, o que somente será possível com respeito ao próximo e  fidelidade a princípios. 

De fato, não há vida sem escolha e nem escolha sem referência a valores. E tudo isso poderia ser traduzido num pensamento de Guimarães Rosa: “O importante não é chegar nem partir, mas a travessia”. Ou seja, nascer ou morrer são acontecimentos que independem de nós, mas viver, não. Viver e conviver, sim, pois deliberamos a cada instante. É um pouco do que disse Leandro Karnal: “O roteiro da vida é escrito por um roteirista chamado você”. Ofender e humilhar as pessoas não pode constar desse roteiro. Por favor, digam isso ao senhor Trump! Não só para agora, mas para o resto de sua vida.  


Fonte: Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook