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José Luiz Delgado: Morte não anunciada

Por José Luiz Delgado

Professor de direito da UFPE

Tendo tanta coisa em comum, o culto da beleza, as artes são muito desiguais. A poesia, o romance, a peça de teatro, o cinema, a música são permanentes e ficam com o autor. Ao passo que a pintura e a escultura, o artista que as criou logo as perde para compradores: são artes que se separam do criador, que só em fotografias voltará a vê-las. O teatro, enquanto representação ou espetáculo, e a arte dos atores, assim como o canto ou a ópera, piores ainda: terminada a temporada das apresentações, nada resta daqueles eventos artísticos – no máximo uma gravação, que será sempre a gravação de um único dia. A novela de televisão acrescenta a peculiaridade de estar sendo criada quase ao mesmo tempo em que é exibida, e o público até exerce um quase papel de coautor. Criada quase simultaneamente com sua exibição, ela depende também de fatores externos – inclusive uma não impossível morte de um dos atores.

Há pouco os espectadores andaram assistindo às últimas cenas desse Domingos Montagner tão tragicamente desaparecido, numa morte que pode ser das mais horríveis e ridículas de todas, arrastado pela águas. Mas o impressionante é ver as cenas derradeiras da novela, filmadas pouco antes, até na véspera da tragédia. Tão bem estava ele, tão disposto, tão palpitante de vida, tão animado no esplendor da carreira, que jamais lhe passaria pela cabeça, pela dele e pela de ninguém, que no dia seguinte, tragado pela correnteza, seria recolhido para debaixo da terra.

Toda morte é absurda, vem sempre antes da hora, corta pelo meio uma existência ainda plena de possiblidades. Mas algumas se anunciam, vêm devagar, dão sinais insidiosos, começam com doenças incômodas e vão se instalando aos poucos, aos poucos apoderando-se do corpo, aos poucos impondo seu império fatal. Dá para a família se acostumar, até para o moribundo se advertir do fim próximo e talvez  tomar algumas deliberações derradeiras (ou repensar a própria vida). A ponto, quando ela chega, de alguns dizerem que “descansou”, como se agora o estado de morto fosse melhor do que o de vivo – pelo menos de vivo naquelas penosas circunstancias.

Noutras vezes, porém – o caso agora de Montagner – ela vem sem nenhum aviso, nenhuma prenunciação. Por isto choca mais e impacta toda gente. A morte dos outros – de amigos, conhecidos, parentes – é uma caridade. Ela grita aos que ficam que também a vez destes chegará. Ninguém ficará imune. E ela pode chegar sem o mais mínimo aviso. Ela vem como um ladrão, está dito no Evangelho, e ninguém sabe quando o ladrão aparecerá. Toda a questão é saber como ela nos encontrará. A mesa posta, cada coisa em seu lugar? A alma pronta? A consciência limpa? Se não houver outra vida, tudo bem, tudo ficará por isso mesmo, e nenhuma repercussão haverá do bem e do mal praticados, nenhum resquício. Mas se houver? Se contas nos vierem a ser pedidas?


Fonte: Diário de Pernambuco

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