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Plínio Palhano: Morte e renascimento na arte

Por Plínio Palhano

Artista plástico

A história da morte e do renascimento na arte persiste desde os tempos da arte rupestre, quando os artistas, considerados bruxos, mágicos, sacerdotes, eram “encarregados” de ligar as imagens ao desejo comum de caça dos produtos para a subsistência tribal. Foi principalmente nas cavernas escuras — que são símbolo de morte, de mistério — que os pré-históricos deixaram essas visões fenomenais em cores terrosas e negras, com cenas de bisontes sendo caçados, de batalhas e outras que são pesquisadas ainda hoje por diversos estudiosos sob a égide da complexa rede do conhecimento. Segundo estes, os materiais usados nas pinturas eram retirados do próprio ambiente, como minerais triturados, argila, sangue, gordura, resina, ervas… Todas essas substâncias naturais formavam pigmentos e aglutinantes, que permitiram resistir, pelos séculos, os registros desses ancestrais nas rochas. O tema principal era a morte para permanecer a vida, a possível conquista da carne e o sangue dos animais para perpetuar a própria espécie. A natureza, o cotidiano da caça e a fertilidade, em que predominava o culto ao ser feminino, estavam presentes em suas representações: em pintura, gravuras realizadas com incisões nas rochas, desenhos, esculturas…

A questão da transcendência foi acentuada na Antiguidade, quando a geometria desenhava os seres e os deuses, de forma rígida e hierárquica, obedecendo a uma simetria permanente. Um mergulho na ordem. E essa ordem geométrica foi morrendo para, aos poucos, a forma humana renascer e adquirir proporção e maior realismo na civilização greco-romana; o conceito de beleza se tornou, então, outro: espelhar a própria natureza. Nas eras Paleocristã e Bizantina, foi perdendo as características clássicas, permitindo nascerem os simbolismos cristãos, que predominaram em grande parte da Idade Média: voltaram às representações humanas sem obedecer às proporções. O Cristo, nas obras, era como se tivesse um corpo maior do que seus apóstolos, por exemplo. Foi preciso voltar ao que a História nomeia como Renascimento para que toda obra greco-romana influenciasse os artistas que marcaram para sempre o planeta em vários conceitos da arte. Desde o Renascimento, muitas concepções influenciaram e morreram.

O movimento de morte e renascimento a cada época representa a morte das ideias anteriores e o renascimento das suas sucessoras. Nos séculos passados, um pensamento e a concepção na arte demoravam muito tempo; só o Barroco durou quase 100 anos no mundo, influenciando muitos países, inclusive o Brasil. No século 20 e neste, passam quais raios e explodem como movimentos que já estão presentes nos anais da História. Só há uma morte definitiva: a do fanatismo, seja na arte, na religião, na ideologia ou na política…


Fonte: Diário de Pernambuco

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