Roberto Pereira: O Nordeste, a gastronomia e o turismo

Por Roberto Pereira

Ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco

O Nordeste brasileiro é considerado uma das maiores reservas turísticas do mundo porque associa a sua densa e extensa cultura às belezas naturais. Neste artigo, sem que o sapateiro vá além do sapato, comento a importância da gastronomia à cobiça dos turistas. A ideia seria a difusão do trinômio sol/mar/gastronomia para que o produto Sabor Nordeste agregue valor para se constituir num atrativo a essa instigante oferta turística.

Remonta a 1997 o conceito, inserido pela Unesco, de patrimônio intangível, assim definido como o elenco de formas de cultura, seja a tradicional, seja a popular, isto é, as produções coletivas que provém de uma cultura e se embasam na tradição. Por isso Pla, um consagrado especialista espanhol, afirmou: “a cozinha de um país é uma paisagem posta na caçarola”.

À ânsia de conhecer a culinária, as suas origens e a maneira de compreender a cultura de um lugar por meio de sua gastronomia, tem crescente relevância. Assim, a cozinha tradicional está consagrada como um patrimônio intangível das nações. No Brasil avulta a cozinha indígena, oriunda dos nossos primeiros habitantes, que, associada à cozinha do colonizador branco e do escravo negro, este de origem africana, ensejando, essa combinação, na cozinha brasileira.

No estrangeiro, por exemplo, o que mais caracteriza o Brasil é a feijoada, tida, até, como símbolo nacional. Porém, no âmbito de nosso país, é possível pinçar regiões pelo ritual como preparam e servem vários dos seus alimentos. Como exemplo, o Nordeste, que esplende alternativas gastronômicas ricas e diversificadas.  

A nossa culinária é também proveniente da saga nordestina, da resistência heroica às secas, estas um paradoxo à fartura do litoral com mais de 3.000 km de extensão, com águas mornas e sempre um deleite aos que nos visitam, neste paraíso tropical, movidos pelo binômio sol e mar, mas sem descurar de nossos valores culturais, dentre os quais se encontra a gastronomia. O nordestino, sobretudo, o sertanejo, guarda, em si, esse “saber de salvação”, como se referia Ortega y Gasset ao sintetizar o que vem a ser o significado de cultura.

Daí, também, o saber camoneano, o da “experiência feito”, em assimilar e desenvolver a cultura do armazenamento de provisões e a forma de preparar alimentos capazes de se conservar sem maiores apetrechos. Assim, a carne de sol, cujo sal é utilizado na sua preservação.Todavia, o peixe é uma das marcas de maior relevo da gastronomia nordestina. Registre-se que temos mais de duas mil espécies em nossa região.

No Nordeste ganha forte presença as frutas e os seus sucos, os pratos decorrentes de tapiocas, de farinha, estas e outras têm aguçada influência na autoestima e na identidade do povo nordestino.

A alimentação é um ato solidário. Os seres humanos têm o prazer do pão dividido, da alimentação entre grupos, mostrando ser um ritual coletivo, além de especial prazer, fazer as refeições conjuntamente. Devagarinho, porque a “pressa é inimiga da refeição”.

Segundo Oscar Wilde, escritor irlandês, “depois de fazer uma boa refeição, somos capazes de perdoar a todos, mesmo aos nossos parentes”. Esse perdão, se gastronômico, somente existirá se, preliminarmente, os familiares entenderem ser verduras do mesmo cozido, parecendo ser este o início da receita à harmonia entre os familiares, apesar das influências de outros condimentos que, nos seus temperos – e destemperos -, mais parecem apimentar do que suavizar o paladar por maior que seja o apetite da fraternidade.


Fonte: Diário de Pernambuco

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