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'Satisfeitíssimo' com trajetória, Milton Mendes recusa ser 'tampão' e defende treinadores experientes

Treinador explica ‘passividade’ no Santa Cruz e prepara novos estágios no Atlético de Madrid e Liverpool




GOAL Por Bruno Andrade


Milton Mendes é um dos treinadores da nova geração que mais chamaram a atenção nos últimos três anos no Brasil. Recolocou a tradicional Ferroviária na elite do Campeonato Paulista, teve uma oportunidade no Atlético-PR, se aventurou rapidamente no futebol japonês e, no primeiro semestre deste ano, foi campeão da Copa do Nordeste e do Campeonato Pernambucano com o Santa Cruz, que ainda chegou a liderar o Campeonato Brasileiro na primeiras rodadas.

As promessas não cumpridas, no entanto, acabaram por encurtar a passagem pelo Arruda. O treinador tinha contrato até o fim de 2017, mas pediu demissão em agosto e logo viajou para Portugal, onde tem casa e jogou profissionalmente durante 13 anos (1987 a 2000). No início de outubro, ele fez um rápido estágio no Sporting e, agora, planeja passar alguns dias no Atlético de Madrid e no Liverpool.

Aos 51 anos, Mendes recusou na semana passada um convite do Sport, porque não tem interesse em projetos curtos. Mesmo sem ter feito um trabalho a longo prazo até então, o comandante, em entrevista ao Blog Ora Bolas, revelou que está “satisfeitíssimo” com o rumo da carreira e ainda defendeu a concorrência com os profissionais mais experientes, apesar de eles tirarem espaços dos emergentes.

BATE-BOLA

Por que o Santa Cruz, hoje vice-lanterna, foi do céu ao inferno no Campeonato Brasileiro?
Antes de assinar de contrato, disse o que julgava ser necessário e avisei que teríamos que trazer alguns jogadores de Série A, pelo menos cinco ou seis reforços. E tudo isso foi aceito. A diretoria queria dar uma cara para o clube, tentar profissionalizar alguns setores… As coisas não aconteceram, mas eu já estava trabalhando forte e eu não quis virar as costas. Precisávamos de qualidade depois de dois títulos conquistados, não tínhamos um grupo que nos dava garantia.  

A liderança nas primeiras rodadas “maquiou” a situação?
Não, porque eu e a diretoria sempre tivemos uma relação muito próxima. Mas dizia pra eles [dirigentes] que aquela não era a nossa realidade, que sabia que com o tempo surgiriam lesões, suspensões, cansaço, que logo aconteceria uma queda de rendimento. Dito e feito. Fui enrolando, quer dizer, enrolando não, fui tentando arrumar as coisas para tomar uma decisão até a virada do turno. 

E você, Milton, onde errou?
Foi a minha passividade na tomada de decisão, demorei muito para me posicionar porque eu gostava das pessoas. Mas uma coisa é certa: o presidente, o vice-presidente, o diretor de futebol, todos da diretoria tentaram de tudo para ajudar. O problema é que o clube está com um passivo muito grande, eles pegaram o clube com um déficit financeiro muito alto, tudo o que entrava era bloqueado por ações trabalhistas, enfim… O clube teve imensas dificuldades. Infelizmente as pessoas que estão lá não são as culpadas por tudo, elas acharam que as coisas aconteceriam de uma forma. Teve também o problema da fornecedora de equipamentos, a Dry World, que prometeu um monte de coisa e, no fim, não era nada disso.

Acha que falta autocrítica aos treinadores brasileiros?
Não vou falar dos outros. Falo de mim, analiso o meu próprio trabalho. Se nós não olhássemos o nosso trabalho, nós estaríamos errando diariamente e achando que somos os deuses do futebol. Sou ser humano, admito os erros e assumo o que faço. Posso falar de mim, nunca vou fazer uma crítica aos outros treinadores. Errei, fui passivo [no Santa Cruz], acho que poderia ter sido mais incisivo na tomada de decisão, principalmente ao cobrar, mas como as pessoas eram tão boas, fui deixando passar um pouco. Não quero falar dos outro, isso criaria uma polêmica. Acho que as críticas devem ser feitas olhando nos olhos das pessoas.

Você, ao rejeitar um contrato curto com o Sport (até o fim do ano), mostrou que trabalha com a filosofia de não ser “treinador tampão”…
Estou fazendo as coisas dessa forma. Não fiquei uma temporada inteira no Atlético-PR porque a falta de resultado fez com que eu saísse, mas, no que dependeu de mim… Tive a possibilidade de sair, rejeitei e priorizei o projeto. O Atlético-PR é um grande clube, bem dirigido, apetecível. Então, quis ficar lá. Tive proposta, de dentro do Brasil, mas não aceitei. Vou seguir trabalhando assim. Estive no Japão [Kashiwa Reysol], não me adaptei e pedi para ir embora depois uma conversa com a diretoria. Depois, no Santa Cruz, o meu projeto era ficar até o final de 2017, mas as dificuldades me fizeram tomar outra decisão. Ainda não tive a possibilidade de fazer um trabalho a longo prazo, mas espero que os clubes tenham a consciência e a vontade de fazer com que as coisas aconteçam dessa forma comigo.

Como é ter de concorrer no mercado com treinadores mais velhos, muitos deles em péssima fase? A falta de renovação não te irrita?
Acho que o novo pode não ser uma aposta e o velho pode não ser obsoleto. Tem que ver as coisas de um prisma que é: os mais velhos têm a experiência, desde que eles saibam estar se reciclando e que o futebol vive de mudanças contantes. Por que não o mais velho? Não tenho nenhum tipo de sentimento de irritação, não fico olhando para os outros. Olho para mim, o que posso melhorar, como posso crescer. É essa forma que faço a gestão da minha vida. Não fico chateado por A, por B ou por C ir para um time grande ou por C ou D ir para um time pequeno. O Oswaldo de Oliveira, por exemplo, é um excelente treinador. Gosto muito dele, acho é um treinador que já demonstrou muitas coisas boas. Tem também o Paulo Autuori, que eu gosto muito, o Levir Cupi… São treinadores que já são mais velhos, mas que têm mostrado evolução. Não sei no dia a dia de trabalho, mas são treinadores que estão ainda dentro do mercado.

Acha que muitos clubes no Brasil ainda te olham com desconfiança por causa da falta de experiência?
No futebol você precisa provar todos os dias. Você perguntou de mim, mas vamos falar de um treinador que está há muito tempo no cenário nacional, o Oswaldo de Oliveira. As pessoas também estão olhando com desconfiança a volta dele para o Corinthians. Nós, mais jovens oy mais velhos, encaramos uma provação diária, precisamos ganhar e evoluir sempre. Nós todos somos vistos sempre com desconfiança dentro do futebol, a nossa vida é uma avaliação constante.


(Fotos: Heuler Andrey/AFP/Getty Images)

Você está abaixo ou acima das próprias expectativas?
Você imagina que um ano e meio atrás eu estava trabalhando na segunda divisão do Campeonato Paulista com a Ferroviária, que não subia há 19 anos. Fizemos um campeonato extraordinário, a equipe subiu, foi campeã com três rodadas de antecedência. Depois, o Petraglia (presidente do Atlético-PR) teve a coragem de buscar um treinador na segunda divisão do Campeonato Paulista e colocar na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Fui campeão com Ferroviária e, em seguida, fiz um campeonato tranquilo, com 30 pontos no primeiro turno com o Atlético-PR. Fiz um projeto extraordinário no Japão, mas as coisas não correram bem, não me adaptei e voltei. Fui para o Santa Cruz, consegui dois títulos. Nenhuma outra equipe brasileira conseguiu dois títulos em 2016. Estava na segunda divisão do Campeonato Paulista e hoje sou reconhecido e lembrado por várias equipes da primeira divisão… Você acha que não foi um saldo positivo? Estou feliz com a trajetória que estou tendo. Tenho que melhorar muito, tenho que crescer muito… E estou num processo de crescimento. Isso faz com que esteja feliz com a minha trajetória dentro do cenário nacional. Quero ter mais possibilidades de projetos grandes, mas estou satisfeitíssimo.


Fonte: Goal.com

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